A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Lázaro Barreto saiba mais sobre o autor

Eros Volúpia

(Lázaro Barreto)

Alguém uma vez escreveu (Shakespeare? Anna Cristina César?) que trepar é humano e chupar é divino. É isso mesmo! Aqui em casa, quando acontece (coisa boa assim não pode acontecer todo dia, né mesmo?) o céu toma conta do quarto e os dois, eu e meu marido, não sabemos qual é o mais feliz, mais sedento, maio aquinhoado. E pensar que levamos dez anos de casamento para, descobrir essa coisa tão simples e inofensiva, instigante e esfuziante, espetacular e maravilhosa! Felação e cunilíngua, palavras tão antigas e tão hoje e tão amanhã!

E pensar que levamos tanto tempo para transformá-las em vida bem vivida e não apenas mal sonhada.... Onde foi que vimos a concretização delas, inicialmente? No desejo reprimido do convencionalismo, no filme erótico do videocassete ou em nós mesmos, como se fossemos um casal indígena que não cansa de louvar, adorar e amar a nudez erótica, tão simples o inofensiva, instigante e esfuziante, espetacular e maravilhosa? Quando vimos estávamos fazendo, primeiramente aos poucos , aos beijos a abraços , e depois, ah voragem da a sofreguidão!, ah concupiscência do malabarismo de trepar nas paredes e árvores mentais!, ah transcendência anímico-física, a gritantemente doce paixão dos sentidos!, ah libido desatada a fluir da medula à flor da pele e vice-versa!, e toma lá pênis a púbis e o vai-e-vem, ele a procurar aquela pecinha do relógio que faz detonar a bomba das flores e dos ardores! eu a chupar e lamber o que de repente não é mais o chamado membro viril, mas sim o fetiche de todo feitiço encantador do êxtase vital.

Foi assim que eu e ele aprendemos a aproveitar os mínimos detalhes das noitadas arrebatadoras. Quando a personagem de Woody Allen ensina a amiga a bela arte da felação usando uma baita de uma banana caturra, ah, não é por me gabar não, mas eu já sabia muito mais que engolir maciamente, dos lábios à garganta, revirando internamente, com todas as rosas e sedas da língua mais palatável deste mundo. Depois, quando víamos os filmes eróticos, ele sempre observava que nenhuma daquelas atrizes escolhidas a dedo sabia fazer tão bem o que eu fazia tão espontaneamente. Não é por me gabar não, mas nenhuma delas gozava enquanto simplesmente chupava... E ele queria saber como isso era possível, se eu não estaria simplesmente fingindo como um poeta qualquer de Fernando Pessoa. Ora, ora, eu respondia, esta é uma técnica minha, autodidática, que não conto a ninguém, pois nem lei contar como é. Só sei que com meu marido é fácil e bacana: ele segura o ímpeto uma, duas, três, quatro, cinco, até seis horas, enquanto eu só vou somando os orgasmos sucessivos de um a três, de quatro a seis, ah teve noite de eu perder a conta, teve noite de eu atingir dezesseis orgasmos, seguidamente!, dezesseis, acredite se quiser. Cada vez que eu atingia o clímax, ele dava um tempo para que eu pudesse respirar um pouco e depois recomeçar o jogo do Eros Voluptuoso e Frenético. Ele se contém, sabe esperar, sabendo que não consegue repetir um orgasmo e por isso só goza quando já estou exausta, isto é, muitas horas depois de começar. E sempre deixa para orgasmar no coito vaginal porque, segundo diz, o pênis lá no seu habitat natural fica ainda mais solto e incontido e quando vê já está subindo nas paredes.

Meus orgasmos felaciosos são maravilhosos: variados múltiplos, incansáveis. Mesmo as nossas preliminares duram horas e horas. Começamos com a felação ou a cunilíngua (quê palavras feias para atos tão bonitos!), devagar e aos poucos, cada um caprichando deliberadamente para levar o outro ao paroxismo do prazer mais alucinante. Ele sabe das particularidades de minhas zonas erógenas e vai despetalando cada uma, de cima para baixo e de baixo para cima, no verso a no anverso do poema que na opinião dele eu me transformo. Nem é preciso dizer, quem ler imaginará. Na seqüência partimos para o tal de sessenta e nove, que é muito mais que isso, que é sessenta a nova mil vezes sessenta e nove. Ah, não agüento tanta bolinação, tanta massagem, tanta sugação a deslizamento. Já pensaram até neste ponto quantos orgasmos assinalei?

Ele gosta de deitar sobre o relvado macio da região pubiana, a testa e a nuca pressionando a constelação de pêlos, lábios, clitóris, todas aquelas pecinhas de relógio, como ele diz. Ele adora ficar com os grandes o pequenos lábios lá dentro da boca dele, enquanto chove lá fora ou os carros passam na rua e os insetos de luz faíscam na escuridão da distância. Ele beija e lambe e chupa, quase come de tão guloso. E eu gozando! Ah, se a vida fosse só assim, já imaginaram quê beleza?! Mas ela requer outras atividades, entre as quais as agressivas (ativas a passivas) - e neste contexto a licença poética da sexualidade do prazer é uma pausa balsâmica, um reconstituinte moral e físico.

4794 visitas desde 1/07/2005
   
  Os contos estão em ordem alfabética por:
» Prenome do autor:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
R S T U V W Y Z

» Título do conto:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
Q R S T U V W X
Z #
» últimos 20 contos


Legenda dos ícones:
  novo autor / novo trabalho
  autor em domínio público
  autor falecido
  trabalho premiado

Copyright © 1999-2011 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com