A Garganta da Serpente
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O quadro

(Alexandre Marques Rodrigues)

Carregava na barriga um filho e não conseguia saber quem era o pai. A pequena vida que se formava ali dentro não era um belo e milionário quadro: fizera-o um autor anônimo e o desleixo da moldura relegava-o a uma sorte duvidosa. Podia ser João, José ou Joaquim; Mário, Marcos ou Moraes; Ernesto, Evaristo ou Edvaldo. Podia ser qualquer um daqueles homens que nem mesmo nomes deixavam na memória curta daquela mãe-hospedeira. Elisa trabalhara muito nas últimas semanas.

É certo que um dia sonhara com um bebê inchando sua barriga. Mas este seria o filho de um príncipe. E haveria amor amalgamando o pedestal desta santa trindade. O sonho perdeu-se entre a poeira do asfalto e a indiferença dos transeuntes. O amor tornou-se ambíguo como um hermafrodita: por um lado Elisa via nele o demônio que precisava combater, por outro ele parecia o portal para uma nova vida (assombrações ainda de seu sonho assassinado).

Na noite passada não houvera muito movimento em sua cama. E ela agradeceu a Deus: estivera enjoada desde a tarde, e quase vomitara sobre um cliente. Agora, desde cedo, andava de um lado ao outro no pequeno quarto que lhe servia de morada e local de trabalho, nos altos de uma construção antiga. A cama, suja e desfeita, limitava seus passos a um caminho estreito e atravancado. Por vezes parava ao lado da janela e olhava a rua.

No quarto ao lado Suzana gemia alto e forçadamente. Era sempre assim quando se deitava com velhos. Após subirem a longa escadaria, era mesmo miraculoso o vigor que ela conseguia tirar daqueles homens terminais. Elisa perguntava-se que fim tivera a avermelhada menina que Suzana parira havia um ano. De qualquer modo, ela sabia: não é bom o destino dos filhos de putas.

Abriu a porta e deixou o quarto.

Um dia entregara-se a um rico industrial. Era na época em que ainda tinha beleza em seus traços. Por que aquela criança não podia ter sido dele? Quando nascesse, daria ao pai e deixaria a seus cuidados o futuro do bebê. Nos últimos tempos, entretanto, apenas se deitava com estivadores e caminhoneiros: não havia a quem dar a criança na esperança de que tivesse uma vida melhor que a sua.

Há momentos em que por todos os lados brotam muros e arames farpados. Com uma escada se pula um muro ou se enxerga uma saída. Mas escadas nunca se encontram pelo chão. E a vida toda, às vezes, semelha um longo corredor, onde só se vê as portas depois que elas passaram. Dia após dia segue-se na inércia de estar vivo e no desespero da repetição. Elisa ouviu os berros de Suzana e pensou entender alguma coisa.

O barulho da rua prometia uma noite farta de trabalho. Era sempre assim quando esquentava e não havia chuva. Logo, no entanto, Elisa teria que passar seus clientes a alguma das outras prostitutas, quando não conseguisse mais disfarçar a proeminência de seu ventre. Seriam então tempos difíceis. E que sentido havia em sofrer uma gravidez até o fim e não ficar com o fruto dos nove meses de martírio? Entre os dedos com unhas roídas, Elisa tinha um terço de plástico branco.

O velho despediu-se de Suzana e passou sorridente por Elisa. Um cachorro latiu na rua. Suzana saiu do quarto nua e foi até o banheiro. Quando depois perguntaram a ela, disse que apenas ouviu um barulho estranho, pouco antes de acionar a descarga. De qualquer forma, ela não se incomodou e voltou até seu quarto para vestir-se e ir procurar outro cliente.

Elisa acordou alguns minutos mais tarde, deitada ao pé da escada, com as pernas saindo pela porta da rua. Tentou levantar-se e sentiu uma dor difusa pelas costas, além da que já sentia nos braços e nas pernas. Havia também sangue saindo de algum lugar de seu corpo e formando diminutos lagos no chão. Quando passaram alguns dias, ela teve certeza: estava tudo resolvido. Não precisava mais de assinatura o quadro abortado que ela logo esqueceu.

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