A Garganta da Serpente
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Na Avenida
(ou: Essas coisas acontecem - parte 1)

(Bayard Fornazier)

- Olá. Como vai?
- Vou bem. E você?
- É. Estou seguindo adiante. Afinal de contas não me é permitido parar, não é?
- Você gostaria de parar?
- Não foi isso que eu quis dizer. Foi força de expressão.
- Está trabalhando?
- Sim. Estou dirigindo uma peça nova. Grupo profissional.
- Que bom. Sobre o que é?
- Sobre relacionamentos modernos.
- Relacionamentos modernos. Você mudou sua opinião a respeito de relacionamentos modernos?
- Não. Mas acho interessante trabalhar com esse assunto. O grupo sugeriu. Topei. E você? O que anda fazendo?
- Consegui abrir meu consultório.
- Que ótimo. Onde fica?
- Fica ali em Moema. É um espaço que divido com outras três pessoas.
- Já está com muitos clientes?
- Estou com quatro. Todos por indicação.
- Que bom. E sua filha?
- Vai bem. Já está na terceira série. Está cada vez mais rápida. Ela vive perguntando de você.
- É mesmo? E você, o que diz?
- Digo que você anda ocupado, trabalhando demais, viajando.
- Ela ainda quer ser atriz?
- Quer. Me perguntou outro dia se você estava com peça em cartaz. Eu disse que não sabia.
- Namorando alguém?
- Nada muito sério. E você?
- É. Estou sim.
- Ela também é atriz?
- Não. É publicitária.
- Há quanto tempo estão juntos?
- Já faz uns dois anos.
- Casamento?
- Pretendemos nos casar em agosto.
- Está feliz?
- Estou. Estou muito feliz sim. Acho que encontrei a pessoa certa.
- Que ótimo. Fico feliz por você.
- E você? Está feliz?
- Não posso reclamar.
- Isso significa "não"?
- Não. Isso significa apenas que não tenho motivos para reclamar mesmo.
- Bom. Você está muito bem. Está muito bonita.
- Você também está muito bem. Engordou um pouco. Ficou bem.
- Obrigado. Está indo para onde?
- Ao cinema encontrar uma amiga.

(- Amiga?
- É. Amiga. Por quê?
- Nada. Fantasmas.
- O que você quer dizer com isso?
- Você sabe.
- Não. Eu não sei.
- Lógico que sabe. Sempre que ouvia da sua boca a palavra "amigas" eu não sabia o que esperar.
- Sei. A sua ortodoxia.
- Chame do que quiser.
- Você chamava assim. Vivia se autodenominando "um homem ortodoxo".
- É. Então é sim. Minha ortodoxia. Mas ela não tem mais nada a ver com você.
- É. Que bom. Eu não suportaria isso. Espero que sua futura esposa também seja ortodoxa!
- Somos bastante parecidos nesse aspecto.
- Somente nesse aspecto?
- Não. Temos muito em comum. Estou sentindo uma certa amargura na sua voz.
- Na sua também. Que coincidência!
- Essa sua ironia me irrita tanto.
- Você não precisa mais se irritar. Você não convive mais com ela. E mais. Se irrita, porque ainda está aqui conversando comigo?
- Porque ainda nutro por você um mínimo de respeito e carinho. Não se esqueça que foi você que fechou as portas para mim.
- E você queria que eu fizesse o quê?
- Que pelo menos uma vez na vida se comportasse com a maturidade que eu esperava. E que pelo visto ainda não veio.
- Ora, não exija demais de mim! Você quer o quê? Que eu perdoe você?
- Não estou pedindo perdões. Mesmo porque não há o que perdoar.
- Realmente. Não há.
- Olha aqui, quando é que você vai crescer?
- Não venha bancar uma de homem maduro, que sabe o que quer, que conhece profundamente a alma humana! Você sabe melhor do que ninguém que tudo aconteceu por crises suas. Por crises de identidade adolescentes que borbulhavam de sua cabeça, não da minha.
- Você está se isentando?
- Não estou me isentando de nada.
- Pois é isso que está parecendo.
- Olha está bem. Chega. Não temos muita coisa a falar um para o outro, não é mesmo? Então me deixe ir.
- Eu não queria que tivesse acontecido dessa forma.
- Mas aconteceu. Não é possível mudar o que foi feito, apagar o que foi dito. Chega. Eu não quero mais tocar nesse assunto. Eu não quero mais ver você.
- Que pena. Porque eu queria manter contato, saber de você, como está, dar apoio quando precisar.
- Eu não preciso. Sei me virar sozinha. Aprendi.
- Está bem.
- Ótimo. Então boa sorte na sua peça.
- Boa sorte no seu novo consultório.
- Tchau.
- Espera.
- O que foi?
- Eu só precisava dizer que ainda amo você.
- Guarde isso para você mesmo.)

(- E vão assistir a que filme?
- Um iraniano. Parece ser interessante. E você? Está indo para onde?
- Estou indo para o ensaio. É aqui por perto.
- Se tiver tempo podemos tomar um café qualquer dia desses.
- É. Sem dúvida. Agora eu preciso ir estou um pouco atrasado.
- Vai. Eu também estou um pouco atrasada. Eu sempre atraso.
- É. Precisa perder essa mania. Tchau.
- Espera.
- O que foi?
- Eu só queria dizer que ainda amo você.
- Será que essa é a hora para dizer isso?
- É. Faz seis anos que não nos vemos e penso em você todos os dias.
- Sei.
- É só isso que você diz?
- O que você queria que eu dissesse?
- Nada. Vai para o seu ensaio. Eu não quero mais atrasar a sua vida.
- Me desculpa. Eu não queria ter sido rude.
- Eu entendo você. Não se preocupe. Eu vou ficar bem.
- Se precisar, me liga.
- Não. Eu não quero atrapalhar sua nova vida. Tchau.)

- Que filme vão ver?
- Um iraniano. Parece ser interessante. E você? Está indo para onde?
- Ensaio.
- Por aqui?
- É. Conseguimos um espaço aqui perto.
- Que bom.
- Bem, eu preciso ir. Estou um pouco atrasado.
- Eu também estou atrasada. Me liga para tomarmos um café qualquer dia desses.
- Ligo sim. Mande um beijo para sua filha.
- Mando sim. Mande um para sua mãe.
- Está bem. Até logo. Bom filme.
- Até logo. Bom trabalho.

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