| Bayard Fornazier |
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Sem ressentimentos
(Bayard Fornazier)
Havia uma velha fotografia sobre a mesa de centro, um copo vazio caído
ao lado, uma garrafa de gim importado pela metade, um cinzeiro de pedra-sabão
cheio de pontas de cigarros e um toco de vela já apagada formando o cenário.
Ainda, jogado no chão, um surrado livro do Raduan. As paredes já
estavam impregnadas da voz melancólica de Billie Holiday. Ele estava
escorado no sofá puído de camisa aberta, calça de brim,
cabelos desarrumados e olhos fixos no retrato daquela mulher. Na parede descascada
rodava uma película muda e gasta de momentos simples. A dois.
A campainha tocara.
Você? É. Vim ver como estava. Bem. Quer entrar? Você quer
que eu entre? Por quê não? Trouxe aquelas carolinas da padaria
de perto de casa. Sei que você gosta. Obrigado. Senta. Andou bebendo?
Um pouco. Não parece ter sido pouco. O que você tem a ver com isso?
Nada. Só me preocupo com você. Não preciso da sua preocupação.
Você não está bem, não é? Grande conclusão
a sua! Não precisa ser rude. Não estou sendo rude. Apenas realista.
Foi essa sua realidade inverossímil que nos obrigou a fazer o que fizemos.
Não use a primeira pessoa do plural! Há quantos dias você
não sai de casa? Escuta, o que você veio fazer aqui? Vim trazer
umas coisas suas que ficaram lá em casa. Pode deixar aí no canto.
O que mais? Mais nada. Então se não tem mais nada a fazer pode
me deixar sozinho. Você vai parar de agir como uma criança estúpida?
Quem sabe no dia em que você me der todos os reais porquês. Que
porquês? O que mais você quer que eu diga? Realmente, você
tem razão. Já dissemos tudo um ao outro. Olha, eu volto mais tarde
quando não estiver bêbado. Não estou bêbado! Está
sim. Quando recobrar a consciência pode me ligar e cobrar todas as explicações
que você acha que eu ainda devo. Não me deve mais nada. Apenas
a minha vida de volta. Como isso você não pode me dar, vê
se me esquece.
Ele encheu mais um copo de gim. Ela saiu da casa sem olhar para trás.
Ele bateu a porta. Ela pôs os óculos escuros no rosto pálido
e dobrou a esquina. Ele entornou o copo de uma vez ventre adentro. Ela soluçava
a cada passo. Ele fitava seus olhos sempre tristes na fotografia. Ela procurava
respostas no ar, nas pessoas desconhecidas, nos carros, nas pedras. Ele procurava
mais e mais perguntas na voz de Billie Holiday. O sol da manhã estuprava-lhes
os olhos.
O revólver no canto ainda escuro da sala. O ônibus vindo violento
no sentido oposto. Um tiro seco na boca ácida. Um atropelamento surdo
no corpo grávido.
E a vida naquela manhã continuava sua rotina simples. Sem grandes acontecimentos,
sem grandes transtornos.
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