| Edilson Landim |
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O anjo louro
(Edilson Landim)
Benjamim, um menino aloirado e sardento de oito anos de idade, fora na minha
infância o meu melhor amigo. Filho do vizinho, o Sr. Moises, judeu, amargava
a discriminação da garotada da cidade. È que o fanatismo
religioso dizia que os judeus eram amaldiçoados por Deus porque mataram
Jesus Nazareno e, por isso, andavam errantes pelo mundo. Na época, os
judeus ainda não tinham conquistado os territórios dos palestinos,
assentando o Estado de Israel.
E para agravar o preconceito, o Sr Moises, descendente de holandês, exímio
marceneiro, cidadão bom, ordeiro e trabalhador, era filiado à
maçonaria local, também amaldiçoada pelo Papa e alvo diário
das catilinárias do vigário. Insinuavam que os maçons pertenciam
a uma seita secreta, adoravam o bode preto, molestavam crianças e bobagens
semelhantes.
Os outros meninos evitavam brincar com Benjamim que era praticamente escorraçado,
até, pelos companheiros de colégio. Meus próprios pais
eram constantemente questionados por religiosos como consentiam naquela amizade.
Ainda me lembro das brincadeiras de apostar bolas de gude. Eram feitos quatro
buracos - as "birocas" - na terra, jogávamos as bolinhas até
a primeira "biroca". Quem ficasse mais perto dela, iniciavá
o jogo. A partir daí, deveria percorrer todo o "circuito",
ou seja, colocar sua bolinha em cada um dos buracos. Após isso, estava
na posição de "matar" a bolinha do adversário,
ou seja, atingir a bolinha do outro com a sua, eliminando-o do jogo. Se errasse
a "biroca" ou a bolinha do adversário, "perdia a vez".
E, também, a bola de gude ou , se casado antes, (moeda em cima de outra
moeda de igual valor) algum trocado da merenda escolar.
E as idas para tomar banho no rio Jaguaribe, ás escondidas de nossos
pais, que temiam afogamento! Lembro-me ainda das caçadas de passarinhos
perto da fazenda São Bernardo com atiradeiras que fazíamos de
tiras de câmeras de ar de bicicletas, amarradas em forquilhas cortadas
de galhos de árvores.
Infelizmente, para os conhecidos e, felizmente, para os habitantes do céu,
Benjamim morreu prematuramente. Estava brincando de empinar pipas perto de uma
construção, quando, ao pisar num monte de taboas, um prego enferrujado
varou seu pé, que começou a inchar. Depois o corpo todo, deu febre
alta e espasmos. Em pouco tempo, se manifestou o tétano. Morreu logo.
Foi uma passagem triste.
O Sr Moises resolveu fazer o caixãozinho do filho em casa e à
noite, no silêncio profundo, o som aranhento do serrote cortando a madeira
e o martelar de pregos interrompiam espaçadamente o sono da cidade. Não
consegui pregar os olhos e a todo instante surgia à minha frente a figura
de meu amigo, inchadinho, com os olhos azuis esbulhados, parecendo pedir-me
ajuda.
Noite de verdadeiro horror.
No dia seguinte, poucas crianças, em sua maioria colegas de classe, acompanhadas
pela professora que afrontara os preconceitos e organizou o cortejo, alguns
amigos do Sr. Moises, contados a dedo, enfrentaram a longa caminhada até
o cemitério. Em fila, o pessoal seguia o caixão, com duas alças
de cada lado, carregado pelos meninos que se revezavam quando cansados.
Longa e dolorida foi a caminhada pela estrada de terra vermelha batida até
o cemitério localizado fora dos arredores da cidade. E mais angustiante
porque o vento da primavera soprava forte e rodopiava no descampado, espalhando
nuvens de poeira nos caminhantes.
Ao chegarmos ao cemitério, fomos barrados pelo coveiro que fechou as
duas bandas do portão de ferro, gritando que, por ordem do vigário,
não podia fazer o sepultamento de um filho de judeu num cemitério
religioso. E aconselhava que voltassem e procurassem o cemitério judaico
na capital, distante 80 quilômetros dali. Houve certa discussão
e o coveiro explicou que o padre ameaçava deixar de celebrar missa às
2as feiras pelas almas na capela.
Um desespero se apoderou de todos. Como a entrada do cemitério era forrada
com grandes pedras de granito trabalhado, foi arriado o caixão na pedra
e todos os garotos se sentaram como podiam, até no chão. Nunca
passei por uma situação tão angustiante. Garoto como outros,
defrontando pela primeira vez com o mistério da morte, sem entender direito
o que estava se passando, desesperado pelo desaparecimento de um amigo, uma
ansiedade de moer o coração, com muita sede, que a água
era pouca para beber, sofri uma tortura cruel. E, ainda, aquele vento doido
que não parava de soprar, esfarrapando-se entre as arvores e frestas
das janelas da capela no cemitério, silvando presságio, provocava
um total desespero.
E ali ficamos tempo sem fim, à espera de uma solução que
pusesse fim àquele pesadelo. Sentado à porta do cemitério,
junto ao caixão do filho, o Sr. Moises chorava silenciosamente. Avisado
do ocorrido, o prefeito compareceu, visivelmente aborrecido, e, lamentando o
incidente, determinou que os portões fossem abertos e a cerimônia
continuasse. Numa lição isenta de qualquer conotação
política, declarou que o cemitério era da prefeitura para servir
a comunidade sem indagar da cor, credo ou nacionalidade, e qualquer morto poderia
ser enterrado desde que tivesse licença do médico local e pagasse
a taxa de óbito. E só assim, foi possível realizar-se o
sepultamento, ato de caridade cristã.
Até hoje, já decorridos tantos anos, quando ouço som de
serrote ou martelar qualquer objeto, em horas mortas, me aparece na memória
a imagem do judeuzinho, como carinhosamente chamava meu amigo Benjamim, o anjo
louro.
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Publicado em: 09/03/2010 |
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