| Gustavo Lapido Loureiro |
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A trepadeira
(Gustavo Lapido Loureiro)
O movimento imperceptível da sombra em breve privará a trepadeira
do calor luminoso que há minutos atrás a banhava.
Talvez agora ela descanse e aguarde até amanhã quando, no mesmo
horário, o calor voltará, ou talvez não, talvez agora ela
esteja suficientemente renovada pela energia que capturou momentos antes, e
persiga a linha que divide luz e sombra e que se afasta cada vez mais. Talvez
seja então, já à sombra, que a trepadeira vai, dia após
dia, se espalhando e subindo pela cerca.
Mas amanhã o movimento imperceptível da sombra não será
mais capturado pelo olhar que agora percebe a cotidiana rotina de luz e sombra
que acabará por produzir, primeiro uma, depois outra, dezenas de flores,
e que irá então atrair a atenção de outro olhar,
mas não deste.
Porque este se apaga e fenece no corpo que acabou de cair do quarto andar e
que jaz agora inerte ao lado da trepadeira.
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