| Hugo Crema |
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naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
(Hugo Crema)
, fiz uma besteira outro dia com o fuzil.
Quem ia saber que você também sofre do mal-caduco?
fiódor mikhailovich dostoiévski
o ventilador quebrou. a noite me sufoca sob um teto de nuvens tornadas brancas
pelos postes excessivos. a prova disso são estas moscas em carrossel
ao redor da luminária evocando o sorriso falso que nenhum dinheiro de
que dispus pôde comprar. o olho vermelho da cafeteira está me censurando.
é hora de parar. é logo desmentido pelo cinzeiro cheio. espere
o fim dos sons da noite para ir. não a esqueci. também não
gosto menos dela. é como fumar sabe-se que é prejudicial e que
é uma obsessão que vale a pena manter. deixo as decisões
para o momento em que baterem à porta. a retribuição dela
ao quero te ver deitada de costas pra mim com a bunda empinadinha foi um sorriso
curto seguido de uísque do copo dela em meu rosto. eu achava que espelhos
em tudo. estofados de oncinha. água de colônia imitando perfume.
trinta reais de consumação. me davam o direito de falar o que
eu quisesse para qualquer um. tudo um rito de iniciação que permitiu
começarmos a conversar. depois eu saberia que sob uma vigilância
distante mas atenta. o que mais atraía eram os dentes brancos. uma assimetria
nos de cima, um um pouco maior. dava vontade de lambê-los. falei de nerval
e latréamont. que ela não conhecia. enquanto acariciava meu rosto
olhava para os lados. nunca nos olhos. não tínhamos trocado olhares
nem nada. o vizinho à esquerda martela nossa parede contígua desde
que eu cheguei em casa. a luminária começou a piscar. gato malhado
se esgueira entre dois prédios desviando das primeiras gotas molhadas.
às vezes acho que o que me fez gostar de vez foi ela nunca receber antes.
uma política de satisfação garantida. o pulso hoje do martelo
em meus tímpanos é o pulso ontem dela arfante sob mim suado. em
silêncio. sequer parecia haver esforço. tudo deslizava. os joelhos
dela. ora em meus ombros ora em meus rins. nos olhos fechados carregados de
pintura envelhecida um quê de recusa. quase no final ela arranha minhas
costas. sem fazer qualquer som ainda. hoje estou realmente sem dinheiro. faz
uma promoção. a rua estridente do outro lado da ligação
entrecorta o que quero dizer. nem doida. tá querendo me passar a perna
seu viado. o direito de pernada é uma reminiscência medieval. você
sabe o que é. cala a boca. financia um pacote de horas pra mim. só
aceito à vista e em dinheiro. você sabe. eu não tinha seu
telefone. se é que ela tinha um. conversas por orelhão. o dia
em que você se apaixonar por mim você deixa de me cobrar e eu beijarei
sua boca. você e eu sabemos que é mais fácil acontecer o
contrário. quando ela desligou na minha cara fiquei com o cigarro em
uma mão. o telefone em outra. pensando na tradução que
estava atrasada duas semanas. a fumaça que trago é mais limpa
do que muito do que ela me deu. logo depois de receber o adiantamento pela série
sobre o zé do beco comprei um vinho. mandei flores e um táxi ir
buscá-la. desci para comprar velas. quando voltei ela estava sentada
na escada do andar esperando. levantou-se e vi. maquiagem borrada escorrendo
pelos cantos do rosto. pupilas gigantes. saia rasgada com manchas úmidas.
o que mais me intrigou foi o cabelo. sempre solto. em coque. fiz com que entrasse.
embora ele estivesse em meu colo a vontade era de afagar seus cabelos e perguntar
algo. em silêncio dei banho. café. camisa que depois ela vendeu
e entregou o dinheiro para ele. foi o que disseram. ela fingiu a própria
morte na época em que adotei a estratégia de só revelar
que não tinha dinheiro após o terceiro. fingido ou não.
orgasmo dela ou o primeiro meu. o que viesse antes. o zelador foi convencido
por ela a dizer que fora atropelada. as colegas de trabalho não atendiam
o orelhão. o pedestre que o fazia não sabia reconhecê-la
só pelo nome ou pela descrição. mereci um tapa e um abraço
ao pedir uma cerveja. agora você aprende a não me dar o calote.
comecei a ligar todos os dias. sem abandonar a estratégia. ele veio me
visitar. arrombou a porta. quebrou o meu nariz e o telefone, ao avançar
para a máquina de escrever o empurrei. o vidro trincou e a moldura amassou
no ponto em que ele tentou se agarrar. já caindo. a ligação
orelhão orelhão não pôde ser completada. atendeu
um corretor de seguros querendo comprar ouro. tampouco a encontrei nas calçadas
de sempre. nos bares de sempre. tanto é que acabei no primeiro. no do
estofado de oncinha e espelho nas paredes. seria mais fácil achar que
ela nunca viu a carta escrita num guardanapo. carta mais pragmática que
romântica procurando. implorando por um lugar. para ir. para deixar. para
incinerar. para esquecer para concretizar alguma coisa. em seis palavras pedi.
escrevi em pé apoiado no balcão e a dei ao garçom. que
achava que entendia a história toda por causa da variação
do grau etílico dos pedidos. da margarita jovial ao uísque de
milho para apagar ausências. fazendo com que prometesse que ia entregar.
esperou eu ficar razoavelmente fora de mim para anunciar o que esteve esperando
a noite inteira para anunciar. é hora de fechar. encerre sua conta. e
todos os esforços são em vão porque ela se matou ao saber
da morte dele. apago o cigarro arremessando-o por cima do ombro. a garoa. pó
fino que arde na minha pele. me fustiga. não tenho pressa. o nariz retém
memória da dor. vou contemplando a rua estática. mal iluminada.
gatos copulando dentro de latas de lixo que amplificam seus ruídos. presenças
intuídas tremem à passagem da luz. se esgueirando entre prédios.
fugiam da água que crescia. o passante eventual me aborda visivelmente
alterado. olha em meus olhos. agarra meus ombros e os sacode gritando. ele a
matou por ciúmes de você. talvez tenha sido a hora de começar
a ficar preocupado. já estava ensopado procurando a chave no casaco da
porta do prédio que dá para a rua. sob a chuva já muito
aumentada. não sei o que o zelador estaria fazendo àquela hora
acordado. ele abriu a porta por dentro e quase me tranquilizou. ela fugiu ao
saber o que você fez. esta poltrona é realmente boa. abstraída
das minhas perguntas de quanto de verdade há em tudo isso. nas fugas.
nas colisões. nas unhas. nos gestos. comandados ou não por outros.
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