| Juliana Beatriz Ferst Strapasson |
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Marias
(Diva do Inferno)
Maria era uma menina linda. Quinze anos, estudante do ensino médio de
um colégio público na periferia da cidade. Sonhava em freqüentar
uma faculdade de Direito e acabar com as desigualdades sociais.
Apesar de pobres, seu Antônio e dona Camila sempre fizeram de tudo pela
felicidade de Maria. Davam-na o que fosse preciso. Eram pais super atenciosos
porém, muito severos.
Maria, à tarde, ia para o colégio e, após a aula, se encontrava
com Ricardo.
Ricardo era o homem que várias garotas da região almejavam. Cabelos
negros, olhos claros, pele branquinha, 1,82m. de altura. Ele era oito anos mais
velho que Maria, trabalhava como segurança em uma loja no centro da cidade
e morava de aluguel, em uma pequena casa atrás de uma panificadora.
Se encontravam todos os dias, às escondidas, em uma praça longe
da casa de Maria. Passavam pouco tempo juntos, mas aproveitavam cada segundo
e ficavam sempre se beijando. Ricardo, por mais que a desejasse para si, mantinha
as mãos sempre nas costas de Maria, pois ela não permitia que
ele as abaixasse.
Ricardo insistia muito que eles fossem para sua casa, porém ela tinha
medo que seus pais descobrissem o namoro.
Passados sete meses, Ricardo disse a Maria que romperia com ela se aquela situação
continuasse. Maria prometeu apresentá-lo a seus pais e tornar oficial
o namoro. Porém, não era essa a intenção de Ricardo.
Pressionou-a muito para que eles passassem ao menos uma noite juntos, e falou
que só votaria a vê-la se a resposta fosse positiva.
Maria disse a Ricardo que tinha muito medo, mas faria o possível para
não perder seu amor.
Ficaram uma semana sem se verem, e Maria, já louca de saudades, combinou
com Rejane, sua amiga confidente, que dormiria na casa dela, porém iria
para casa de Ricardo.
Ao chegar em casa, Maria disse a seus pais que teria que passar a noite na
casa de Rejane terminando um trabalho do colégio. Desconfiados, ligaram
para Rejane e confirmaram se Maria realmente dormiria lá e, somente depois,
deixaram-na ir.
Maria entrou às pressas na casa de Ricardo para não ser vista.
Lá beijaram-se louca e demoradamente.
Envolvida nos beijos, Maria nem se deu conta de que, um a um, ele abria os
botões de sua blusa e que logo estavam completamente nus.
Ricardo parecia um selvagem. Maria gritava e pedia pelo amor de Deus que ele
parasse, mas como um animal ele continuou até a exaustão.
Aquela foi a última vez que se encontraram, até que, meses depois,
Maria soube que estava grávida.
Maria foi até a casa de Ricardo procurá-lo, e ao chegar foi informada
que ele havia se mudado a mais ou menos um mês.
Desesperada, e com medo de seus pais, que haviam batido muito nela quando souberam
da gravidez, Maria roubou algum dinheiro de dentro de casa e fugiu.
Maria foi para uma pensão só de mulheres que ficava na rua Cruz
Machado. Lá Carmelita, como era conhecida Carmem, a dona da pensão,
deu um chá com uma grande dose de arruda para Maria abortar e já
avisou que Maria só ficaria lá se tivesse como pagar.
Aos prantos, Maria disse que não poderia ficar por muito tempo, pois
estava com pouco dinheiro. Carmelita resolveu ajudá-la.
Alguns dias depois Carmelita apareceu com um homem. Baixo, barrigudo, que aparentava
ter uns 55 anos. Levou-o até o quarto de Maria e disse para ela "agradar"
aquele homem.
Já tirando a camisa, manchada de gordura, ele chegou perto dela e tentou
beijá-la. Assustada Maria saiu correndo do quarto e foi procurar Carmelita
que obrigou-a a voltar se quisesse continuar a viver lá.
Ainda muito assustada ela voltou. Entrou no quarto e lá estava ele,
de pé, nu a sua espera. Ela se aproximou, pediu desculpas, ajoelhou-se
e fez o que ele pediu. Depois deitaram, ele tirava uma a uma cada peça
da roupa de Maria. Beijou todas as partes de seu corpo, até desfrutá-la
sexualmente.
Depois de tudo acabado ele deixou R$ 30,00 reais em cima do balcão e
foi embora. Maria, enojada de seu próprio corpo, foi tomar banho. Tinha
vontade de se lavar com água sanitária, porém sabia que
de nada adiantaria.
A cada dia que passava Carmelita aparecia com um homem diferente. Uns altos
e magros, uns gordos e carecas, dentuços, desdentados, feios, horríveis;
mas todos apresentavam uma característica em comum: a avareza. Deixavam
quando muito R$ 25,00 reais.
Maria não gostava daquilo porém, depois de algum tempo, já
estava acostumada. Então já não eram apenas um, eram dois,
três, até cinco numa mesma noite. Todos queriam Maria, ou melhor,
Mary, como já era conhecida; menina nova, bonita, interessante...
Mary viveu lá por muitos anos, até que os clientes deixaram de
procurá-la. Carmelita disse que não havia mais condições
de Maria, sem clientes, continuar morando lá, pois era preciso alugar
o quarto para meninas mais novas e sedutoras.
Maria foi para outra pensão. Nesta porém, foi expulsa quando
os donos souberam que ela se prostituía.
Então Maria foi para as ruas. Ficava sempre na Presidente Farias, entre
o Passeio Público e a Universidade Federal. Lá, Maria começou
a usar drogas, e gastava todo o dinheiro que ganhava para conseguir sempre mais.
Algumas vezes chegou a se prostituir por um vale transporte ou por um simples
prato de comida.
Maria havia perdido sua identidade. Na cama, era Mary, Jane, Paula, ou seja
lá quem fosse.
Estava cada vez pior, usando mais e mais drogas a cada dia que passava. Brigava
nas ruas com outras prostitutas, xingava os clientes que, por causa das ofensas,
não voltavam mais.
Maria bebia muito, e já não tinha o mesmo brilho no olhar, agora
carregado de maquiagem.
Maria se hospedou em um pequeno quarto na própria Presidente Farias.
Até mesmo nas noites frias do inverno curitibano ia para a rua. Blusinha
vermelha, saia branca, bota cano alto. Aquela roupa que antes chamava atenção
no corpo sensual de Maria, agora era motivo de risada entre os homens.
Maria olhava para o prédio da Federal e lembrava com tristeza de sua
juventude e do tempo em que sonhava ser advogada. Pensava até em juntar
um dinheiro, largar aquela vida e voltar a estudar, mas acabava gastando todo
dinheiro que ganhava em drogas.
Certa noite, logo depois de fazer um programa, o homem se recusou a pagar.
Eles discutiram e Maria foi muito agredida. Ficou com um olho roxo e vários
hematomas pelo corpo. Teve que ficar alguns dias sem trabalhar por causa da
agressão.
Uma noite, ao voltar para as ruas, parada na esquina à espera de clientes,
Maria viu Ricardo aproximar-se dela. Ele já não era o mesmo homem
de antes, porém ainda reconhecível.
Ricardo, sem saber que a mulher com quem falava era Maria, propôs um
programa. No primeiro momento ela recusou, mas logo mudou de idéia. Então
foram para o quarto. Lá, Maria relembrou a traumática noite que
tivera com ele há vários anos atrás e chorou.
Ele perguntou-a o que estava acontecendo, então ela contou a ele quem
era, falou o motivo pelo qual ela havia virado prostituta e o culpou.
Ricardo saiu da cama, vestiu-se, colocou uma nota de R$ 50,00 reais em cima
da mesinha de cabeceira, olhou para Maria e disse que nada poderia fazer por
uma vagabunda.
Maria ficou lá, chorando. E sem ter motivos para continuar batendo,
seu coração parou, e uma última lágrima caiu de
seus olhos.
(15/03/03)
um pouco mais...
Este conto relata a historia de uma única Maria, porém, todos
os dias várias garotas são levadas a se prostituir por diferentes
motivos. Não apenas as "Marias", mas também as Renatas,
Paulas, Jaquelines..., por este motivo, o nome do conto apresenta-se no plural.
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