| Rodrigo Novaes de Almeida |
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Tocata e Fuga em Saigon - 2001
(Rodrigo Novaes de Almeida)
O barulho da bateria do telefone celular acabando add o ar abafado do fim de
tarde add tédio, tédio e murmúrios da cidade, do seu concreto
intumescido e vapores salgados e fétidos dos restos, dos ratos, dos mendigos,
desdentados e doentios, gentios e putas e toda sorte de males e retalhos de
almas, vozes agonizantes, mortos-vivos, zumbis e olhos de vidro diante de uma
televisão desligada, ruídos, gemidos, gozos, perfurações
à bala na carne, sangue, rosas e rubis no cu de filhos e filhas, a gente
mundana, seu decaído mundo, monumentos fálicos contorcidos, pichados,
subterrâneos, subterfúgios, fios e cabos e carros e carroças
e touros negros estuprando meninas brancas, neuróticos vestindo calcinhas
mijadas, psicóticos com seus ternos e gravatas caros, crianças
comendo merda e assistindo a programas débeis e as orgias e mutilações
e fuzilamentos e incestos nas mentes nos corpos nos destroços nessa gente
partida, fragmentada, retalhada e fodida, as fraturas expostas e todas as costelas
quebradas, nenhum inocente, nem culpados, todos mortos, todos mortos.
Saigon. O infernal calor da vilazinha, onde vivem os vassalos dos reis plebeus
da nossa aristocracia contemporânea. O verão naquele lugar não
perdoa nem a mais nova das almas. Saigon é pior do que o próprio
inferno, só que na terra. Nessas terras mundanas e decadentes e miseráveis...
Ontem à noite saímos. Fomos todos a um bar. Algumas cervejas mais
tarde e o Diabo disse aos amigos: - Vamos para a minha casa! Um inferninho na
Rua Prado Júnior, em Copacabana. O Diabo sou eu!
Às vezes saio da torre do meu castelo e caio no mundo. Após oito
dias de isolamento em cárcere, cerveja, uísque, bate-papo sobre
filosofia, prostitutas.
M. era o mais animado. Mulheres rebolavam sentadas em seu colo. Outros amigos
também se divertiam. P. sequer entrou no inferno. Foi embora para o limbo.
E o inferno era o paraíso na terra.
Oito horas da manhã, depois de uma punheta, deitei na cama para dormir.
A carne pesava cerca de uma tonelada, mas o espírito vagava pleno nas
brumas do sono e da perversão. Minha alma imortal não tinha contradições.
O Diabo era eu!
Uma apaixonada crise-de-fé que nada mais é do que a própria
fé.
Três desejos eu tenho: uma grande biblioteca, um harém com quarenta
mulheres e uma entrevista com o Diabo! Que ontem era eu!
Por que quarenta mulheres? Por que quarenta cavalos, ora? Por quê? Por
quê? Por que o Diabo? Por que, ora bolas? Porque ele como personagem é
bem mais interessante do que o Outro. Por que quarenta mulheres?
É quase a hora de enterrar os corpos. O banquete de vermes.
Salve nossas miseráveis almas! Posto que um longo inverno decairá
sobre nós. Denso, frio e cinza.
Tocata e Fuga... Remotamente K.
Trancafiado na torre há dias, K. sonha. O maço de cigarros acabara
na véspera e ele se sentiu obrigado a acender o seu velho cachimbo inglês,
que estava guardado há anos.
A localização da antiga cidade era numa imensa caverna rochosa,
milhares de metros abaixo do nível do mar, num dos pólos. Aquele
era o Seu Reino. Desde o início do Tempo.
A biblioteca, os edifícios, os jardins suspensos, os salões, a
vassalagem, a lagoa gelada, o ar frio, a tecnologia do futuro e todas as estórias
do passado. Desde o Princípio...
Naquele lugar o nosso personagem entendeu o por que! Observar e documentar a
Humanidade. O Diabo era extraterrestre. Plantou o humano no mundo e observava
atento.
Concubinas, gueixas, virgens, pratos refinados, exóticos, livros raríssimos,
manuscritos e teogonias. Ar condicionado, cabos, computadores, o inferno estava
cheio disso. E era o paraíso...
Algumas poucas almas imortais gozavam da Sua companhia e viviam na Sua cidade.
Eram homens especiais. Faziam parte de uma elite culta que remontava a eras
remotas.
K. seria o Primeiro. O Novo Homem. Uma nova era.
Eis o êxito e o fracasso do filósofo, o momento no qual é
terminada a sua obra, quando o sistema é fechado, acabado. Morto. O seu
triunfo, sua glória e sua morte. O sistema falha. O filósofo fracassa.
Há uma semana trancafiado na torre do meu castelo. O sono traz sonhos
de uma outra vida, uma outra existência. A consciência traz o pesar
amargo de uma costela quebrada.
Não tenho delícias. Não tenho amores. Restam-me apenas
palavras. E as palavras não me aquecem, não confortam o espírito.
Noutra vida eu tinha certa paz. Mas esta se perdeu. Perderam-se vidas. Perdeu-se
a paz.
Somente a poesia renova a alma do mundo. Amar ainda é o sentimento do
mundo. Amar com todas as forças, embora sem ser amado, é sentir-me
vivo. Sou torpe, mas sou um romântico. Bastardo do mundo, em verdade.
Atravessei os séculos em cruzadas, erigi monumentos, proclamei idéias
pagãs, cruzei mares, matei monstros e homens e alguns desses homens eram
monstros... Cheguei aqui, ao novíssimo novo mundo, e reneguei o passado,
esqueci meus feitos, meu nome. Agora volto para casa. E levo comigo apenas as
dores, essas cicatrizes e um velho retrato, da mulher que amei um dia.
Eu construí um ser que concebe toda a sua humanidade. Um ser humano!
O homem cínico, metafísico, mundano, moral. O homem romântico.
O homem completo. Pleno. O Novo Homem.
O homem verbo. O homem canto e encanto. O homem mito transformado em voz. O
homem fratura exposta ao homem exposto. O homem costela quebrada, partido, ao
homem inteiro.
Sou pagão. Sou filósofo e sou poeta. Tive quantas epifanias me
foram possíveis, saltos quânticos me atravessaram a mente, fluxos
orgânicos intermitentes. Retornarei ao pó, stardust place!
Conheço-me bem! Este é o meu mal! Cada pensamento, cada raciocínio
lógico, suas raízes e origens, e o resultado disso. Os sentimentos,
as exaltações do espírito, suas depressões...
São quase dez mil anos de civilização. Tenho vinte e cinco
séculos de existência, perambulando por essas terras, vagando pelas
estrelas, contemplando toda sorte de manifestação, mundo e gente.
Porque eu sou desde que o tempo é tempo. E isto é Presença.
Eu sou Presença. Porque esse é o sentido do mundo e das coisas
do mundo. Viajar através da galáxia e então voltar para
casa.
Eu venho criar o novo homem / Eu venho para conceber o novo / Porque eu sou
o novo / Atravessado.
Ouço Réquiem de Mozart. Anoitece. O calor é terrível.
Dormi poucas horas hoje. Inventava uma outra vida, fantástica.
Depois de feito o pacto com Ele, percorria o mundo e me deliciava com monumentos,
culturas, mesas fartas, histórias, aventuras, mulheres, leituras e toda
sorte de factos, pesares, abstrações, sentimentos etc. Um magnífico
passeio pela mente, uma longa jornada onde tudo era possível, crível
e necessário experimentar. Até o instante em que levantei o corpo
cansado da cama para mais uma brevíssima eternidade de tédio,
repulsa, sensação de fracasso, decadência e morte lenta.
Retornava ao Velho Mundo. Atravessava a Europa. Navegava pelo Mediterrâneo.
Chegava ao Egito. Foram oito anos de peregrinação e palavra. Mais
dez anos no Oriente. Depois cinco anos cruzando o Novo Mundo, a América.
Na pequena maleta apenas os manuscritos, mapas, fotografias amareladas e um
manto inca. Memórias.
As ilhas gregas, os pubs irlandeses, as pirâmides, as pequenas aldeias
chinesas, os arranha-céus das metrópoles, as rodovias do oeste
americano, a variedade de pratos, gente, paisagens, construções,
mulheres, enfim... Todos esses lugares, todos esses anos. Tudo isso numa única
noite. Tudo isso no isolamento da torre do meu castelo. Tudo isso aqui, dentro
do meu crânio!
De todo trago de toda bebida que já tomei em vida, de todas as taças
que já usei em vida para servir-me ao trago de todas essas bebidas, nenhum
trago nem bebida nem taça superam este crânio, esta mente e estes
pensamentos que nutrem a si mesmos, que me alimentam de forma tão representativa,
tão presente, nascendo e morrendo e renascendo. Tornando-se vida.
Madrigal - Tal como uma ópera, a vida! / A minha vida. Tragicômica.
/ Uma triste piada. // Cheia de dramas rotineiros. / Espetáculos forçados.
/ Gestos arbitrários, grosseiros. // Conheci a Mulher. / Perdi a Mulher.
/ Passei cinco anos numa ilíada atroz. // E então reencontrei
a Mulher. / Mais bela. Mais misteriosa. / Mais madura. Mais distante ainda.
// Passarei outros anos eternos / numa odisséia gravíssima. /
Para em seguida morrer velho e só.
O barroco a elipse e o espelho: mais do que o Diabo ter convencido o mundo de
que ele não existe foi ele ter convencido o Outro de que o Outro é
o Diabo.
E o Progenitor da Humanidade observa a sua obra, enquanto o mito sobrevive.
Sempre. Nossos antepassados representaram-no, e ao seu mundo, em mitologias
e crenças. Os deuses e os demônios, o paraíso e o inferno.
Cunilingus - nec vero id satis habuit.
O bom vivant, luminoso; por outro lado, místico, tortuoso...
É o que nós tentamos: transformar todos os livros da grande biblioteca
num único volume, contendo o nosso nome no princípio, no meio
e no fim; nós escritores, pensadores, filósofos, poetas. E a consciência
desse plano é o primeiro passo para aceitarmos o fracasso por vir. Porque
fracassamos. Sempre.
Sobre buscas e fracassos - o que tentamos e o que sabemos.
Sobretudo aquilo que não sabemos!
Mais do que o Diabo ter convencido o mundo de que ele não existe foi
ele ter convencido o Outro de que o Outro é o Diabo.
É o que nós buscamos, mas não nos contentamos.
É o que nós desejamos, mas... non est satis aestimare.
E o Progenitor da Humanidade observa a sua obra, enquanto os vermes devoram
a carne.
Anamorfoses. O bom vivant diante de um espelho.
A elipse e o barroco. A musa vem para encantar o poeta.
Porque fracassamos. Sempre.
Cunilingus - nec vero id satis habuit.
Tive que matar um inseto com olhos verdes florescentes, se bem que eu suponho
que aquilo fosse um inseto, não tenho certeza, que estava no quarto sobrevoando
minha cabeça e eu doido para dormir e não conseguia (o barulho
do interfone tocando ininterruptamente continua me atormentando, apesar de não
haver interfone algum tocando ininterruptamente), e como o bicho mutante não
é nenhum vaga-lume, mata-lo não me trará azar, se é
que matar vaga-lumes traz ou deixa de trazer azar, o certo é que sorte
não traria mesmo e todos temos um tanto de verme em nós, coisa
de genes, mas isso não significa que somos vermes, embora algumas pessoas
pareçam ser...
Tratei a puta como dama, ou quase isso, e as damas, umas sonsas, como putas!
Você vai de um ponto a outro / mas o outro ponto / é o mesmo ponto.
// Imagine / você está numa nave / numa nave capaz de sair do sistema
solar, / do cinturão de Órion, / da Via-Láctea, / do conjunto
de galáxias próximas / e de todo o conglomerado pulsante de matéria
/ e energia que chamamos de / Universo. // Quanto mais longe desse ponto / mais
próximo desse mesmo ponto, / posto que sua rota elíptica / jamais
reta / fará você voltar ao mesmo ponto inicial. / Num outro momento
/ ilusão de tempo. // O Universo não é fechado / é
um sistema aberto / que gira em torno dele mesmo / em si mesmo e para si mesmo
/ de si mesmo.
Eu sou desde que o tempo é tempo.
E isto é Presença.
Eu sou Presença.
Eram cinco horas da manhã quando me levantei da cama nesta segunda-feira.
Depois de um desjejum, li os cadernos literários dos jornais das últimas
semanas que havia separado.
Aos poucos ia nascendo um belo dia, ensolarado. Entrava uma brisa refrescante
pela janela da sala. Deitado na rede eu podia contemplativamente escutar os
pássaros acordando.
Transpassadas as primeiras horas voltei para o meu quarto. Escolhi a música
de Beethoven como companheira perfeita desta manhã salva.
Vinte dias atrás, aproximadamente, uma quarta-feira de cinzas revelava-me
apenas resquícios do estorvo carnavalesco que tive, expressos num único
verso - 'cerveja cigarro cachaça' - e, inadvertidamente, a totalidade
única e versal dos últimos três meses mergulhado numa depressão
espacial, seca, infrutífera, cercado por deserto e ruínas, blocos
de concreto e palácios de areia fina, entre sonhos, entre brumas negras,
devaneios, devaneios...
Porra nenhuma! não vejo saída, ou tocata e fuga - em Saigon, Rio,
Berlim ou Cairo? talvez seja tudo, e mais nada, porque eu estou de saco cheio,
e só o delírio, só a imaginação, poderá
trazer o corte na carne necessário para romper o fio e corromper a alma,
porque esses lugares, essas cidades e esses mundos, em verdade, não existem,
a não ser aqui dentro, dentro dessa cabeça raspada e demente,
dessa taça quebrada [...]
Esses jogos estão me matando. / Passo as noites em claro / criando mundos,
/ criando estórias. / A fuga é iminente. / A tocata é meu
cárcere. / Enlouqueço vertiginosamente. / Já não
há mais volta. / Caio nesse abismo. Dentro de mim. / Sou seu escravo.
/ Sou meu próprio escravo. / Sem auto-piedade. / Sem misericórdia.
/ Apenas culpa e desespero. / Sou. / Todo fracasso. / Sem redenção.
// Escravos da paixão, os homens / perecerão / sem compaixão
/ serão devorados friamente / pelo inumano.
O que é imoral eu sorvo / O que é moral eu vendo, dôo, negocio
/ Eu sou amoral / E como tal / tocar seus seios / vê-los / ou canibal
/ comê-los / de forma literal / talhá-los / não passa /
simplesmente / de um ritual.
Apogeu, decadência e fim de impérios, guerras, pestes, lendas,
mitos, heróis, batalhas ganhas, amores perdidos, traições,
vinganças, extermínios, paixões, crenças, filosofias,
conquistas, fracassos, retratos, risos, lágrimas, túmulos, catedrais,
ruínas, aniversários, olhares, filhos, livros, páginas,
tinta, paredes, muralhas, portas, abóbadas, aurora, janelas, jardins,
fantasmas, lua, estrelas, crepúsculo, homens e mulheres e crianças,
os detalhes, o lugar-comum e o extraordinário, vidas.
Porque nunca deixaremos de ser humanos.
Já não bastassem os delírios canibais, os sonhos, os devaneios
sórdidos, as fugas e tocatas de uma imaginação úbere,
a perversão, o cinismo desse canalha filho-da-puta, amoral, quase um
deus demoníaco na mente brilhante de um louco, o mito, o ego exagerado,
a consciência atravessada pelo extraordinário, ainda tem esses
detalhes comezinhos para digerir na carne.
Um funeral diabólico, o que é. Como um grupo de amigos a combinar
que quando um deles estiver preste a morrer, eles devem fazer uma grande festa,
e que esta festa só deverá terminar com o tal do enfermo morto.
Ou, caso ele demore a morrer, com o primeiro que porventura vier a morrer durante
a festa. Três dias de festa, porre, orgia, rituais de sangue, sacrifício
etc., e ninguém (só vale o grupo de amigos) morto, deve ser iniciado
o assassinato ritualístico antropofágico - estripamento e canibalismo
- do moribundo, momento em que os seus amigos o talham e o comem; e a festa,
a grande festa, o funeral, enfim, termina.
Somos meramente animais dotados de razão!
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