Carlos Drummond de Andrade nascia há cem anos em Itabira. De lá,
foi para Belo Horizonte, onde se juntou a jovens poetas e escritores, que se
tornariam, depois, grandes nomes da nossa literatura. Entre eles, Emílio
Moura, cujo centenário também se comemora esse ano, e que era
conhecido pelos componentes do grupo como "o poeta".
Drummond se tornaria o maior poeta brasileiro, e um dos nossos maiores cronistas.
Acompanhou os grandes acontecimentos do seu tempo com suas crônicas e
com sua poesia. Funcionário público, dizia que quem quisesse saber
algo sobre ele, lesse seus poemas. E, de fato, Drummond utilizou a sua poesia
maior como uma autêntica psicanálise, como um processo de cura.
E, se curou, de diversas formas. Curou-se, assimilando e superando o seu difícil
relacionamento com o seu pai, e com o que ele representava, proprietário
de terras, fazendeiro, latifundiário. Drummond se tornou, durante um
período da sua vida, membro do Partido Comunista. E em suas crônicas
e poesias teceu severas críticas sociais.
O mesmo com relação a sua Itabira. Foi, muitas vezes, incompreendido
pelos seus próprios conterrâneos, que o criticavam por haver "abandonado
Itabira". Depois, com o tempo, quando Drummond passou a se corresponder
com um jornal da cidade, "O Cometa", essas críticas foram amainando.
Dummond, na verdade, nunca deixou Itabira, como confessa em um dos seus poemas.
Itabira permaneceu viva dentro dele, em uma imagem mítica, que ele não
queria perder. Daí, talvez, porque não tenha retornado a Itabira
fisicamente. Para respeitar e conservar essa imagem para sempre.
Na sua ida para o Rio, Drummond ampliou as fronteiras do seu "mundo, vasto
mundo". Deixou os limites acanhados da província, para assimilar
um novo modo de viver e de ver o mundo e sua terra. E soube fazê-lo, com
todo o seu imenso talento.
Mas, permaneceu mineiro, como sempre. Não perdeu o seu jeito de mineiro,
de Itabira, provinciano e cosmopolita, ao mesmo tempo. E do seu banco, no passeio
de Copacabana, via e traduzia o Rio, o Brasil , o mundo.
Foi poucas vezes a Buenos Aires, visitar a sua filha Maria Julieta, que tanto
amava. E, no mais, ficou no Rio. Não precisava viajar a outros continentes,
pois a sua visão de poeta alcançava muito além de qualquer
horizonte.
Todos que com ele se corresponderam o descrevem como um homem simples.
Um homem simples que soube amar e que traduziu esse amor em seus poemas amorosos
e eróticos.
Um grande poeta que alargou os horizontes da nossa compreensão e da nossa
poesia, a qual alcançou níveis de verdadeiras epifanias, como,
por exemplo, no poema "A Máquina do Mundo", como comenta Affonso
Romano de Sant'Anna, um dos maiores estudiosos da obra de nosso poeta maior.
E continuou "gauche na vida", como disse o anjo torto no seu nascimento,
no poema que praticamente traduz toda a sua obra, "Poema de Sete Faces".
"Mundo mundo vasto mundo,/ mais vasto é meu coração"!