Assisti hoje no jornal da TV uma cena comovente: uma senhora que há
vinte anos é uma militante do PT, ficou aguardando, desde as 3:30 h da
madrugada, a saída de Lula do seu apartamento, com o fim de receber um
simples aceno do novo Presidente brasileiro. Ela estava com o seu "lulamóvel",
um carro todo decorado com cartazes, santinhos e emblemas petistas. Ela contou
que decidira comprar uma chácara para descansar, após uma vida
de trabalho. Mas, pensou bem e, em vez de investir na chácara, investiu
no seu "lulamóvel", pois sentiu que estaria traindo toda uma
vida de militância ativa, se assim não agisse.
Qual não foi sua surpresa quando Lula saiu do seu carro e se dirigiu
a ela, para abraçá-la e lhe dirigir os seus agradecimentos, de
uma forma absolutamente natural, como é do seu estilo, deixando-a emocionada
com essa recepção inesperada.
Sim, estamos vivendo novos tempos em nosso Brasil. Pois, pela primeira vez,
um homem que surgiu das camadas mais humildes da população, pernambucano,
torneiro mecânico, depois líder sindical, candidato derrotado à
Presidência por três vezes, na quarta tentativa conseguiu se eleger,
com a maior votação de todos os tempos em nosso país. E,
não só aqui, pois sua votação foi superior até
mesmo à de Bush e a de Al Gore, nas eleições de 2000 nos
EUA.
Um homem que começou a trabalhar bem jovem ainda, assim como sua esposa.
E que nos comícios em que discursava, na região do ABC paulista,
nos anos de chumbo da ditadura militar, frente à uma imensa multidão
de metalúrgicos, via pairar sobre si um helicóptero militar, com
metralhadoras apontadas para ele.
E que amargou prisão, e de lá saiu algemado, para comparecer ao
enterro da sua mãe. A sua mãe, que nasceu e morreu analfabeta,
como ele declarou, mas que lhe ensinou a manter sua cabeça sempre erguida
e a olhar os outros de frente.
Foi esse homem de origem humilde, que perdeu um dos seus dedos em sua perigosa
profissão, e que perdeu, também, a sua mulher grávida,
por depender dos serviços ambulatoriais do governo. E, que, depois, já
viúvo, veio a conhecer a sua futura esposa, também viúva,
prestando serviços na área social sindical.
Esse homem que não desistiu, apesar das sucessivas derrotas, e que traz
uma mensagem de esperança e paz, contra o medo, pregado pelos seus adversários.
E que pretende negociar com todos, inclusive com seus adversários, pois
sabe que só assim se conseguirá mudar a precária situação
em que se encontra o nosso país.
Pois serão necessárias amplas reformas, que sempre foram proteladas,
ou timidamente iniciadas, para que se construa um novo país.
E, como Lula declarou, é agora que realmente virá a parte mais
difícil.
Os problemas são imensos, por exemplo, como enfrentar e equacionar as
dívidas externa e interna? A violência que domina a sociedade,
o crime organizado, o tráfico de drogas, as fugas e revoltas nas penitenciárias?
O desemprego, o sub-emprego, a infância e a juventude sem perspectivas,
sem empregos, reféns do tráfego de drogas, de órgãos,
da prostituição, da violência dentro e fora de casa, da
exploração no trabalho sem trégua, em regime de escravidão?
E a especulação no mercado financeiro, os juros elevados, em um
modelo econômico deturpado, que canaliza os recursos públicos e
privados para os bancos, as grandes corporações financeiras internacionais,
o FMI, deixando a massa da nossa população na mais absurda e absoluta
miséria? E a nossa perda contínua de pesquisadores que se dirigem
para os países que lhes oferecem condições dignas de trabalho,
pois aqui em nosso país nem o governo, nem as empresas privadas perceberam
ainda que só quando investirmos de fato em pesquisas, para desenvolvermos
a nossa própria tecnologia, o nosso know-how, nos conseguiremos libertar
da tutela de outras nações. E o nosso desperdício de materiais,
de recursos humanos, seja, nesse último caso, por pura e simples eliminação
física, ou por atingirem a "idade limítrofe" de quarenta
anos! Que aberração! Em um país tão carente de mão
de obra especializada! Quantos são forçados a mudar de profissão,
para a qual se prepararam e a exerceram durante toda as suas vidas! E o que
isso representa em perdas de recursos profissionais e financeiros, para não
falar nos problemas psicológicos daí resultantes, difíceis
de serem solucionados!
E, como Lula bem disse, em vez de exportarmos matérias primas, exportemos
produtos com valor agregado, que apresentam preços bem superiores aos
das matérias primas!
Para que se consigam resultados, será necessário um planejamento
efetivo. E como Lula já mencionou, o Ministério da Fazenda não
será mais poderoso do que o Ministério do Planejamento, como vinha
acontecendo no atual governo, em que não houve planejamento e os ministérios
praticavam políticas e ações desencontradas, com perdas
irreparáveis.
Lula mencionou, inclusive o Governo JK, em que só foi possível
o crescimento de "cinqüenta anos em cinco", como prometera e
como cumpriu o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, através de
um planejamento muito bem executado pelo então Ministro Celso Furtado.
Sim, será uma verdadeira "batalha" (no bom sentido) que o Presidente
eleito do Brasil e sua equipe enfrentarão, desde a sua posse, em janeiro.
E cujos resultados não surgirão da noite para o dia.
Mas Lula convida toda a população, para que se engaje em um esforço
efetivo, pois ele mesmo diz que vai governar para 175 milhões de brasileiros.
É necessário se esquecer todas as rivalidades, "picuinhas",
inveja e medo.
Lula está, de fato, apoiado não apenas pelos três governadores
eleitos pelo PT, mas sim por doze governadores, se computarmos o apoio declarado
e explícito dos governadores eleitos por outros partidos que o apoiaram.
Na Câmara e no Senado, o PT conseguiu aumentar significativamente as suas
bancadas. O mesmo sucedeu nas Câmaras de Deputados estaduais, como em
Minas Gerais, por exemplo.
E como Lula, e toda a sua equipe, está disposto e preparado para negociar
com o fim de conseguir aprovar todas as reformas urgentes que precisam ser implementadas,
teremos realmente um novo país. Já não é sem tempo!