A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Na Madrugada

(Abilio Terra Junior)

Entre duas ou três recordações lá ia ele, caminhando vagarosamente. A inspiração chegaria, cedo ou tarde, era só não ficar tenso.

A avenida estava quase vazia àquela hora, apenas alguns carros passavam, esporadicamente, e alguns pedestres, que circulavam pela madrugada.

Pensou em entrar em um restaurante ou em um bar, tomar uma bebida, talvez comer algo... embora não sentisse fome. Talvez ouvir uma música ao vivo, a música inspira...

Continuou andando. Um mendigo se aproximou, com a mão estendida, ele respondeu que estava sem trocados, e era verdade.

Resolveu tomar um táxi e deu o endereço do seu prédio ao motorista. Entrou em seu apartamento, fechou a porta, foi recebido com alegria pelo seu cachorro.

Estava morando sozinho, desde que se separara da sua mulher. No início, havia sido difícil, mas, agora, até já se acostumara. Às vezes, namorava, mas com a namorada continuando na sua própria casa, e ele, na dele. Preservava, assim, sua liberdade e independência. Brincou com o seu cachorro, se sentiu mais leve, trocou a roupa.

Deu uma olhada na correspondência, nada de novo, as contas de sempre. Leu alguns poemas de um livro que estava lendo. Ligou a televisão, nem um programa ou filme o interessou, a desligou. Tomou um copo d'água, comeu uma pêra.

E ligou o computador, chegaram algumas mensagens, respondeu as que pediam uma resposta. Leu algumas, deletou outras tantas.

Abriu o Word, era agora ou nunca... precisava escrever um texto para entregar no mesmo dia, pela manhã. Relaxou bastante, vieram algumas idéias, as foi descartando, uma a uma.

Lembrou-se de um casal que vira sentado no banco daquela praça, por onde costumava passar. Estavam aos beijos e abraços, e, de repente, começaram a discutir. Quem sabe dali não surgiria um conto ou uma crônica, ou até um poema?

Escreveu uma palavra, duas, três, pensou, pensou... e foi tomando forma um conto sobre um casal perfeito, que freqüentava uma das igrejas do bairro. E, que, de tão perfeito, foi se esquecendo de colocar em dia aquelas rixas escondidas, aqueles desencontros camuflados, aquelas mágoas sentidas, pois precisavam manter a sua "imagem perfeita" perante a sua comunidade. E, em um momento descontraído, uma pequena palavra fora o estopim para a explosão de tanta emoção reprimida, doida para se manifestar! E a imagem, cultivada com tanta dedicação, se desmantelara em poucos minutos! Que pena! Mas seria pena mesmo? Ou apenas um "acerto de contas" acumuladas há tanto tempo?

Pronto, estava "salva a pátria"! Salvou o texto, o imprimiu, e o deixou pronto para enviar, de manhã, bem cedo (estava quase amanhecendo) para o jornal.

  • Publicado em: 26/02/2003
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