Ela dizia que se casara muito jovem, com 17 anos, e o seu marido tinha 46 anos.
Mas, foram muito felizes durante 17 anos. Depois, ele adoeceu, tinha 1,80 m,
mas quando acabou, estava minguado, e ela fez um gesto com as mãos, do
tamanho de um bebê.
A vida de viúva é muito triste, ela completa, você não
imagina. Sofro de depressão, de repente começo a chorar, sem mais
nem menos. Aí, me transferem para outro setor. Costumo trocar as letras,
até minha letra piorou. Ainda bem, se fosse em uma empresa privada, já
tinham me demitido. Eu cuidava de mim, caminhava, cheguei a fazer três
plásticas. Agora, não tenho ânimo para nada.
Pergunto a ela se foi a um psiquiatra, psicólogo, ela me responde: -
o psiquiatra disse que eu estou ótima... Digo a ela que há, atualmente,
grupos de pessoas deprimidas que se reúnem e se ajudam mutuamente. Ela
diz que tem interesse, mas não conhece nenhum.
Ela me diz que gostava de fazer artesanato e coisas semelhantes, mas hoje não
faz nada. Trabalho aqui de 8 da manhã até 6:30 h, e com a depressão...
Eu era muito feliz com o meu marido, ela repete, ele era uma pessoa boníssima.
Homem mesmo, não como esses de hoje, que usam calça, mas, vai
ver... Moça do interior, sem nenhuma malícia... Aqui, onde trabalho,
não se pode confiar em ninguém, diz ela. Um ambiente falso. Eu
retruco que é assim em todo lugar. Antes do meu marido morrer, eu saía
da minha cidade, e vinha fazer faculdade aqui. Depois, tranquei a matrícula.
Ela recebe aluguel de alguns imóveis deixados pelo marido. Se não
fosse isso, com o que ganho aqui, não daria para sobreviver...
Outro dia, a sua filha de quinze anos lhe disse que queria trabalhar. Ela diz
que aquilo partiu seu coração. Como arranjar trabalho para uma
moça de quinze anos, com a situação atual, com milhões
de desempregados. E colocar a sua filha, com 1,80 m, linda, para trabalhar hoje,
do jeito que está, já pensou? ela me pergunta. Eu nada respondo.
Puseram fogo em meu carro, esses pivetes... e a companhia de seguros não
quer pagar. Com o carro, eu viajava para a minha terra, com a minha filha, nos
fins de semana. Agora, ficou mais difícil, os ônibus são
caros...
Nisso, entram duas pessoas para serem atendidas. Ela me pede licença
e se dirige com eles a outro setor.