Que nem Davi entoando um amoroso cântico para a sua "muy dulce"
Betsabá, ele lapidou cada verso com o esmero e o vigor de um escultor barroco,
sem se importar se sua obra ficaria, também, para a posteridade. Imaginando-a
em sua mente, utilizou ricas metáforas para descrever o brilho dos seus
olhos negros, suas sobrancelhas que tocavam os oceanos, seus lábios enigmáticos
e febris, suas orelhas quase transparentes sob seus abundantes cabelos negros,
suas têmporas delicadas, o seu pescoço esguio, os seus ombros redondos,
os seus seios pequenos e erguidos, sua cintura em sutil curva que continuava em
robustas ancas e em um escuro triângulo invertido misterioso e acolhedor,
suas pernas indefiníveis que sempre o cercavam magicamente, seus pés
suaves e lúdicos que sempre o surpreendiam.
Pensou depois em rasgar aquele tributo à amada, sentindo-se como um leviano
que estivesse a lhe desvendar íntimos segredos. Pensou em enviar para ela,
em uma carta "à antiga" ou em um ousado e-mail, e ficar a espera
da sua resposta. Ou então memorizá-lo e, na primeira oportunidade,
declamá-lo suavemente aos seus ouvidos, antevendo como resposta uma voluptuosa
noite de amor.
Pensou tanto que perdeu o sono e passou a noite em claro. No dia seguinte, dobrou
cuidadosamente a folha em que versejara, como se fosse um tesouro sem preço
e guardou-a no bolso da camisa, junto ao seu coração. Ali ficaria
como um talismã, trocando com o seu coração emissões
sublimes e silenciosas.