A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Versos de Amor

(Abilio Terra Junior)

Que nem Davi entoando um amoroso cântico para a sua "muy dulce" Betsabá, ele lapidou cada verso com o esmero e o vigor de um escultor barroco, sem se importar se sua obra ficaria, também, para a posteridade. Imaginando-a em sua mente, utilizou ricas metáforas para descrever o brilho dos seus olhos negros, suas sobrancelhas que tocavam os oceanos, seus lábios enigmáticos e febris, suas orelhas quase transparentes sob seus abundantes cabelos negros, suas têmporas delicadas, o seu pescoço esguio, os seus ombros redondos, os seus seios pequenos e erguidos, sua cintura em sutil curva que continuava em robustas ancas e em um escuro triângulo invertido misterioso e acolhedor, suas pernas indefiníveis que sempre o cercavam magicamente, seus pés suaves e lúdicos que sempre o surpreendiam.

Pensou depois em rasgar aquele tributo à amada, sentindo-se como um leviano que estivesse a lhe desvendar íntimos segredos. Pensou em enviar para ela, em uma carta "à antiga" ou em um ousado e-mail, e ficar a espera da sua resposta. Ou então memorizá-lo e, na primeira oportunidade, declamá-lo suavemente aos seus ouvidos, antevendo como resposta uma voluptuosa noite de amor.

Pensou tanto que perdeu o sono e passou a noite em claro. No dia seguinte, dobrou cuidadosamente a folha em que versejara, como se fosse um tesouro sem preço e guardou-a no bolso da camisa, junto ao seu coração. Ali ficaria como um talismã, trocando com o seu coração emissões sublimes e silenciosas.

  • Publicado em: 27/04/2005
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