A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Servidão humana

(Achel Tinoco)

Nada, mas nada mesmo, pode ser mais triste e nos causar tanta indignação do que a servidão humana. E há muito acreditávamos estarmos livres daquele "Tinir de ferros... Estalar do açoite... Legiões de homens simples, em condições subumanas, sem ar, sem luz, sem razão e, principalmente, sem vida, qual num sonho dantesco. As sombras voam..." e os fantasmas voltam a nos assombrar, porque no presente nem Deus pode muito fazer contra um senador da República que escraviza seu povo, o mesmo povo que nele votou. Ao invés dos porões tétricos de navios cheios de negros, a escravidão agora é mais moderna, menos preconceituosa porque já não faz distinção de cor nem de raça, mas de precisão; os gritos que, raramente, ouvimos, não vêm dos mares, mas das matas das fazendas dos senhores donos de vidas necessitadas, que se doam por um prato de comida.

Àquela época, construindo-se um novo mundo, dava-se o desconto de sermos atrasados a ponto de julgar o homem semelhante apenas pela cor. Mas agora, com tanta tecnologia e conhecimento, que o mundo se tornou o quintal de casa, não podemos aceitar que um senador mantenha no seu mandato esse borrão escravista. As leis para puni-lo precisam ser achadas, já que existem, segundo dizem os políticos, inclusive uma, aprovada recentemente, que prevê a expropriação de terras onde houver trabalho escravo.

Mas algum colega ousará desapropriar as terras de um colega?

Ora, o povo já é escravo por natureza: escravo da fome, da miséria, da ignorância. Pior: escravo do voto, e do mesmo senador que o mantém cativo. Como única explicação, comum a todos àqueles que são pegos em semelhante delito, ele dirá que tudo não passa de "perseguição política". Homens como esse, que escraviza o seu povo, nada mais são que ditadores ignaros e irracionais, sem alma e sem consciência. Portanto, devem ser postos em jaula.

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