Nada, mas nada mesmo, pode ser mais triste e nos causar tanta indignação
do que a servidão humana. E há muito acreditávamos estarmos
livres daquele "Tinir de ferros... Estalar do açoite... Legiões
de homens simples, em condições subumanas, sem ar, sem luz, sem
razão e, principalmente, sem vida, qual num sonho dantesco. As sombras
voam..." e os fantasmas voltam a nos assombrar, porque no presente nem
Deus pode muito fazer contra um senador da República que escraviza seu
povo, o mesmo povo que nele votou. Ao invés dos porões tétricos
de navios cheios de negros, a escravidão agora é mais moderna,
menos preconceituosa porque já não faz distinção
de cor nem de raça, mas de precisão; os gritos que, raramente,
ouvimos, não vêm dos mares, mas das matas das fazendas dos senhores
donos de vidas necessitadas, que se doam por um prato de comida.
Àquela época, construindo-se um novo mundo, dava-se o desconto
de sermos atrasados a ponto de julgar o homem semelhante apenas pela cor. Mas
agora, com tanta tecnologia e conhecimento, que o mundo se tornou o quintal
de casa, não podemos aceitar que um senador mantenha no seu mandato esse
borrão escravista. As leis para puni-lo precisam ser achadas, já
que existem, segundo dizem os políticos, inclusive uma, aprovada recentemente,
que prevê a expropriação de terras onde houver trabalho
escravo.
Mas algum colega ousará desapropriar as terras de um colega?
Ora, o povo já é escravo por natureza: escravo da fome, da miséria,
da ignorância. Pior: escravo do voto, e do mesmo senador que o mantém
cativo. Como única explicação, comum a todos àqueles
que são pegos em semelhante delito, ele dirá que tudo não
passa de "perseguição política". Homens como
esse, que escraviza o seu povo, nada mais são que ditadores ignaros e
irracionais, sem alma e sem consciência. Portanto, devem ser postos em
jaula.