A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O sol da África e o do sertão

(Achel Tinoco)

Lá vem o sol, como vem no Sertão do Brasil, dia após dia, inexoravelmente, desnudar o homem simples e acostumado. Este sol já não queima o seu olhar, não o abençoa, não chicoteia mais a vida, apenas a estorrica no crepúsculo do dia seguinte e a faz cair num braseiro de espinhos da Caatinga, sem festa ou lamentações. O mesmo sol candente que percorre os desertos da África, qual abutre sem asas, fingindo um olhar morno ao amanhecer para bicar a terra - pássaro permanente dos céus sobre nossas cabeças; sobre a África e sobre seus filhos, sobre suas vidas e sobre suas mortes.

Mas o homem não desiste, não desanima. Vive, e vive porque precisa; e vive porque não se submete àquele pássaro, acostuma-se a ele inadvertidamente, sem refúgios nem sombras, não se entrega, ainda que outro vinco seja imposto à sua face negra por dentro da noite enquanto conta estrelas e sonha com flocos de neve caindo no areal. O homem chora, mas o deserto dele não se apieda, não enche seus rios de areia, não escorre por entre seus leitos sulcados nenhuma lágrima, nenhuma esperança a nutrir sua alma seca. Tão-somente a morte quando o mesmo sol voltar de manhãzinha para derreter a neve dos sonhos de ontem à noite.

Então este sol já se tornou homem e este homem já se fez sol. O sol-homem, o homem-sol, para que a vida não seja apenas feita de sacrifícios e sofrimento, para que no rosto de cada um africano, e cada um sertanejo, não se eternizem apenas as lágrimas em grão, mas risos; apenas dor, mas a brisa das Savanas e da Caatinga.

O homem enfim aprende a ser forte e orgulhoso por causa do sol; e o sol, como o abutre lá do alto, aprenderá que um continente inteiro não é o bastante para derrotá-lo, e que se faz preciso, por tudo isso, conviver com as adversidades e vencer a morte a cada novo dia e soerguer a própria vida no mesmo dia, mesmo que estejam sempre à espreita - a morte e a vida -, mesmo que se tornem companheiras inseparáveis.

Lá vem o sol, como vem no sertão nordestino queimar o pé de Mandacaru, esperando talvez que eu mesmo encha de lágrimas uma cacimba no Raso da Catarina, no sertão do Cariri, e ao mesmo tempo no delta do Okavango. Mas como sou qualquer poeta sem coração, ou cameleiro sem lida, escondo minha dor à sombra do baobá e sob o juazeiro - a mesma dor pungente dos bosquímanos férreos e do sertanejo invencível. Mas como não há motivo de vingança em meus olhos alquebrados, e muito menos no olhar daquele povo africano e do nordestino, entrego este relato dorido às garras do abutre, essa ave desalmada sobre o mundo a planar sozinha: sem princípios nem inspiração, rechaçada pelo azul celestial que se espelha num rio de "faz de conta" onde não pus nenhuma lágrima, uma gota de orvalho, somente o sol em palavras.

O amor desse povo é também assim: como um punhal africano encravado no tronco do baobá; como um facão do sertanejo sangrando o pé de mandacaru.

E lá vem o sol, por último, e lá vai o homem contra o tempo definitivamente.

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