Ora, ora, então vejam vocês que o rio seguia tranqüilamente seu curso, ainda que tivesse obstáculos a pular pelo caminho, ainda que suas margens fossem desnudadas...
Chegou um político, como sempre eles chegam de algum lugar, e pensou que poderia levar alguma vantagem do Velho. "Que tal desviá-lo, Nordeste acima, por entre margens de cimento?", pensou entusiasmado, sobre a própria idéia de jumento. E mais: para justificar aqueles que sabiamente se oporiam à faraônica obra, justificando que o Velho Chico, já tão chicoteado pelo sol, não suportaria essa viagem tão longa Nordeste acima, morrendo pelo caminho, o ignaro político também já tramara: "A água só será usada para beber e dar de beber aos animais".
Assim sendo, algum de nós deve perguntar como se daria a fiscalização dos 700 quilômetros, para se saber quem está bebendo da água ou usando-a para outros fins? Não seria mais prático, esse mesmo político enfiar o bilhão disponível no bolso e deixar o rio em paz? O sertanejo certamente prefere o rio como Deus o criou, ainda prefere percorrer léguas com uma lata d'água na cabeça a ver o Velho Chico morto definitivamente. O rio São Francisco passa, mas o político continua lá, à margem, como um urubu agourento, esperando-o morrer para beber suas águas fétidas.