Segundo deve pensar os dirigentes da igreja católica, vetar um show
de Daniela Mercury, na Praça do Vaticano, é muito mais importante
e urgente a proteger os milhões de crianças e adultos infectados
todos os dias pelo vírus da AIDS, porque não compreendem a importância
e a necessidade de um ato tão simples, mas fundamental, que é
o uso de preservativos. A igreja deveria ser a primeira a se enfronhar nesta
campanha de prevenção, o que, certamente, abrangeria muito mais
gente na luta. Não, a igreja, para esses assuntos, não ouve, não
fala, não ver, sequer tenta coibir os abusos de padres pedófilos
dentro de seus átrios. Os escândalos se sucedem, mas a igreja finge
que não é com ela; decerto esses senhores de sotaina não
pertencem a seus quadros, admite, por isso mesmo não merecem o castigo
devido, muito menos o divino. Mas uma artista que se propõe a divulgar
o uso de preservativos, de suma importância para o combate a AIDS, para
que tantas vidas sejam salvas, é impedida pelo papa.
Pior: não deixa de ser uma censura prévia ao seu direito de expressão,
como se somente ao papa fosse dado esse direito, ainda que nem sempre o que
ele tem a dizer seja assim tão relevante. Ora, o que o papa entende sobre
crianças se prostituindo e se drogando nas esquinas do mundo?; sobre
os mutilados das guerras, sobre os infectados de AIDS?; sobre o drama daqueles
que morrem por falta de cuidado, de prevenção, de apoio? Nada.
Este papa nem mesmo é pop, nem mesmo tem a simpatia e o carisma
do seu antecessor, mas este papa gosta de proibir, de negar, de regredir. E
a igreja o que faz: prega a abstinência sexual, a donzelice funcional
como forma de nos mantermos puros, porém amordaçados, mas livre
de todos os pecados, como se vivêssemos no tempo da burra inquisição
e dos porões ditatoriais da casa de Deus, onde os pensamentos estavam
acorrentados; metendo-se em todos os assuntos e impondo sua vontade como se
fôssemos os mesmos anencéfalos que ela mesma, a igreja, insiste
em fazer nascer, negando à mulher o direito básico à vida,
ao próprio amor, ao livre-arbítrio. Então, a igreja que
se preocupe com temas que a ela possa parecer relevante, mas não use
de hipocrisia como forma de intimidação àqueles incapazes,
humildes pela própria natureza, carregando enormes cruzes nos ombros,
sem possibilidade de reagir ou pensar, morrendo pelos cantos porque a igreja
decidiu: tem de ser assim.
Negar a Daniela o seu direito de livre cantar, decerto não a impedirá
de cantar ainda mais, e de se fazer ouvir, portanto, o papa de certa forma contribuiu
ainda que muito timidamente com a causa.