A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Dia do Escritor

(Achel Tinoco)

Toda a imprensa, dias atrás, publicou com estardalhaço, com belos textos e poesia, sobre o "Dia do Orgasmo". E tem o Dia da Macumba, o Dia da Cachaça, o Dia do Goleiro... Só faltava o dia do orgasmo, agora não falta mais, foi oficializado. Mas ontem, 25 de julho, ninguém se lembrou de mim. Decerto não tenho importância sozinho, e o dia de ontem não era dedicado a mim especificamente, mas a todos os que escrevem. Ontem foi o DIA DO ESCRITOR, sim, senhor. Nenhuma mísera nota, no entanto, li nos jornais, nenhuma alusão em qualquer programa de TV. Posso até entender que ontem o Bahia ou o Corinthians ou o Flamengo iriam jogar, por isso ocupa-se todos os espaços com belas matérias sobre a genialidade de cada um perna-de-pau, sobre os dotes artísticos dos técnicos, e sobre a importância dos jogos para o futuro do Brasil. Mas não faria mal algum se se lembrasse do pobre escritor, ainda que este não tenha qualquer relevância à ascensão política do país; ainda que a cultura seja posta em último plano; ainda que o escritor pertença a uma classe desunida. Mas ontem foi o seu dia e ninguém se lembrou de nós. Não há problema que o Brasil tenha um dos maiores índices de analfabetismo da América Latina e a sua gente não consiga ler duas linhas de um jornal. Uma grande foto com os jogadores perfilados já é o bastante para que se aculture e entenda o significado das palavras abaixo:

Agüenta coração!, como diria um apaixonado narrador. E como diria um inconsciente escritor, O povo não precisa de letras, mas de pão e circo. E isso no Brasil ele tem à vontade.

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente