Eu queria sair de casa pela manhã e não ter de me chocar com crianças
cheirando cola na primeira esquina. Mais adiante uma menina grávida de
outra menina fazendo sexo oral com um homem para ganhar um real. Que droga!
Isso não é vida, eu digo e hei de me indignar a princípio,
mas da terceira vez em diante já terei me acostumado, como quem perde
a virgindade e ainda sente dor nas duas vezes seguintes, e vou virar o rosto
de lado para não passar o dia maquinando como melhorar a situação
desse país. Mais do que isso: ainda tenho que reservar paciência
para assistir às apresentações de outros meninos na sinaleira
quais micos amestrados por uma moeda. Distraí-me com suas "macaquices"
e um deles me furtou o celular que estava no banco do carona e eu imprudentemente
esquecera o vidro do carro aberto. Se não for ainda hoje, com certeza
amanhã ele será castigado por um comparsa ou por um policial truculento
que não se sentiu na obrigação de ouvir sua história
- será encontrado numa vala comum antes mesmo de adolescer.
À porta da escola há um traficante vendendo pacotinhos de hortelã
aos alunos e um aluno exibe um revólver que porta na cintura, faltam
dez para onze. A professora disse que não pode fazer nada, limita-se
a adverti-lo verbalmente, mas ele não sabe o significado do verbo, xinga-a
de todos os nomes feios. Penso que aqueles da rua, os da sinaleira, até
os de casa deveriam estar naquela ou noutra escola qualquer, contanto que estivessem
na escola. Lá dentro deveria ser melhor do que cá fora, mas talvez
seja pretensão demais da minha parte, segundo devem pensar as autoridades
políticas cá fora lhes garantirão um votinho no futuro,
lá dentro podem começar a entender de retórica e não
lhes dar ouvido depois.
Que seja minha pretensão, eu sei ou utopia, queria me debruçar
na balaustrada da praia e ver apenas o mar sem essa onda de miséria;
sem esse medo de viver; sem esse horizonte vazio.
Queria apenas voltar para casa sem tropeçar nessa merda toda.
Sou mesmo pretensioso.