Antigamente, até para se demonstrar boa educação, quando
se adentrava um recinto fechado ou à casa de um amigo, tirava-se o chapéu.
E, somente para não esquecer, antigamente todo mundo usava chapéu.
Com o tempo e com os volteios da moda, o chapéu caiu no esquecimento,
a não ser aqueles bonés dos adolescentes e um ou outro senhor
mais tradicional de vetusta idade que ainda costuma usá-lo. Assim, causou
estranheza aos eleitores que um deputado use um chapéu de couro como
extensão de seu corpo e dentro dele carregue todas as grandes idéias
de seu mandato. Disse o suplente e hoje deputado Edigar Mão Branca que
o chapéu faz parte dele, como o cérebro e a cabeça decerto.
Desse modo, tudo que se encontrar no cérebro e na sua cabeça,
encontrar-se-á também dentro do seu chapéu e por isso mesmo
o Congresso parou por um dia inteiro para discuti-lo, o chapéu. Esse
candidato foi quase eleito para representar o povo, mas quem o representa é
o chapéu e como, sob sua ótica, não há nada mais
importante a se discutir no Brasil do que o seu chapéu, porquanto se
dá ao luxo de tal obscenidade. Agora o deputado já teve os seus
10 minutos de fama, talvez ele não tenha outra oportunidade de se sobressair
tanto, uma vez que a sua grande idéia é justamente usar o chapéu,
o único modo de aparecer, e como apareceu! Sim, mas agora faz-se preciso
manter esse sucesso, então, na próxima semana, aliás, menos
de uma semana - porque eles reduziram a semana em menos uma segunda e menos
uma sexta -, vão discutir a qualidade do couro do chapéu, e noutra
oportunidade, as correias do chapéu, e por ai vai... Ah, e se o chapéu
perder a importância, ele vai chegar ao Congresso carregando a sanfona,
porque também é sanfoneiro, e então dirá que a sanfona
também é uma extensão do seu corpo. Ora, meu Deus, um deputado
poderia até andar nu, contanto que trabalhasse; que produzisse; que tivesse
vergonha na cara e fizesse um pouco pela gente que o elegeu. Mas como, se não
tem capacidade nem educação para usar um chapéu! Daqui
a pouco vai propor uma CPI, para se investigar a origem desse chapéu,
se o couro usado para confeccioná-lo é de um boi baiano ou de
um cabrito gaúcho.
Nem um, nem de outro: acho que é de um jumento mesmo!