Não é justo pensar numa mulher moderna que não pode decidir
sobre o próprio corpo; que é obrigada a manter uma gravidez que
não deseja e não quer levar adiante. Talvez seja mais honesto
interrompê-la. Se é certo ou errado, cabe a ela decidir, afinal
o aborto em si já consiste numa dura punição, ademais,
para que conquistou a liberdade de pensar, se não pode pensar livremente?
E se jogam suas crianças no meio das ruas, também não estão
de certa forma "abortando"? Aí começa nova discussão:
quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? O óvulo ou o esperma? Quando
começa a vida afinal? Enquanto a discussão não se define,
as meninas continuam a interromper suas gravidezes indesejadas em clínicas
clandestinas, ou com chazinhos e citotec vendido livremente nas feiras
livres de todo o país. Evidente que se tivéssemos uma educação
mais apurada, com certeza o problema seria reduzido à metade, ou talvez
as mulheres tivessem mais consciência de seus poderes e por isso não
se deixassem levar apenas pelo momento sem a responsabilidade que o momento
exige. Se tivessem mais educação, decerto poderiam pensar melhor.
A sociedade enquanto isso finge não enxergar o problema, porque é
conveniente, porque tem medo de seus próprios dogmas e porque não
quer ir de encontro à malquerença da igreja. A igreja sequer discute
o assunto, delega aos seus fieis as conseqüências e os impõem
às penitências de Deus. Tem opinião rígida, intransigente
e inflexível sobre o caso, o que também influência a postura
dos políticos que por sua vez não vai se opor à "cegueira"
da população; que por sua vez teme a igreja e, por conseguinte,
a Deus. Melhor deixar tudo como estar, um dirá ao outro na missa do próximo
domingo. Mas se faz preciso, sim, discutirmos o assunto; é preciso que
a mulher seja ouvida de forma clara e desassombrada; é preciso que a
mulher discuta o problema e exponha sua opinião e vontade.
Aqui mesmo na Bahia, soube que uma menina de 14 anos morreu na semana passada
depois de ter o útero perfurado por agulhas numa tentativa de aborto
malsucedida - tornou-se estatística - e uma adolescente de 18 anos está
presa faz muitos dias porque decidiu interromper a gravidez que somente a ela
pertencia. Neste caso, seria melhor que morresse também, como devem pensar
algumas autoridades, afinal, "quem pariu Mateus que o balance", sentenciará
o meritíssimo.
Não se trata de ser ou não a favor da vida: claro está
que todos somos a favor da vida, então que a protejamos e que a salvemos
em todos os estágios e não apenas, hipocritamente, numa barriga
que não está preparada para recebê-la. Enquanto a discussão
não se alarga e se aprofunda, as meninas continuam engravidando cada
dia mais cedo, porque são mulheres cada dia mais cedo, porque estão
transando cada dia mais cedo e porque estão sonhando cada dia mais cedo.
Se é assim, que elas sejam ensinadas também mais cedo a repensar
sobre os seus atos e sejam protegidas e sejam reeducadas para que a procriação
não se transforme num ato feio e epidêmico, especificado por decreto
ou através das leis. Não deixemos a cargo dessas meninas a decisão
solitária de se danarem e de se resolverem - abortando.
Ali, na esquina, existe uma clínica de abortamento, vocês sabiam?
Não sabiam? Pois é, todas as meninas de 12 a 16 anos sabem onde
ela fica. E muitas delas estão lá agora...
Então, o Ministro da Saúde está certo ao defender um plebiscito.
Legalizar o aborto talvez permita à mulher um melhor atendimento e um
atendimento específico. Não quer dizer com isso que se torne uma
prática banal e comum, mas quando for estritamente necessário.
Até porque, as mulheres não vão sair por ai fazendo aborto
indiscriminadamente, como se se tratasse de um novo modismo e todas elas amanhecessem
grávidas amanhã e não quisessem mais ter filhos. Apenas
terão o direito de optar sobre suas vidas.