A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Sobre o aborto

(Achel Tinoco)

Não é justo pensar numa mulher moderna que não pode decidir sobre o próprio corpo; que é obrigada a manter uma gravidez que não deseja e não quer levar adiante. Talvez seja mais honesto interrompê-la. Se é certo ou errado, cabe a ela decidir, afinal o aborto em si já consiste numa dura punição, ademais, para que conquistou a liberdade de pensar, se não pode pensar livremente? E se jogam suas crianças no meio das ruas, também não estão de certa forma "abortando"? Aí começa nova discussão: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? O óvulo ou o esperma? Quando começa a vida afinal? Enquanto a discussão não se define, as meninas continuam a interromper suas gravidezes indesejadas em clínicas clandestinas, ou com chazinhos e citotec vendido livremente nas feiras livres de todo o país. Evidente que se tivéssemos uma educação mais apurada, com certeza o problema seria reduzido à metade, ou talvez as mulheres tivessem mais consciência de seus poderes e por isso não se deixassem levar apenas pelo momento sem a responsabilidade que o momento exige. Se tivessem mais educação, decerto poderiam pensar melhor.

A sociedade enquanto isso finge não enxergar o problema, porque é conveniente, porque tem medo de seus próprios dogmas e porque não quer ir de encontro à malquerença da igreja. A igreja sequer discute o assunto, delega aos seus fieis as conseqüências e os impõem às penitências de Deus. Tem opinião rígida, intransigente e inflexível sobre o caso, o que também influência a postura dos políticos que por sua vez não vai se opor à "cegueira" da população; que por sua vez teme a igreja e, por conseguinte, a Deus. Melhor deixar tudo como estar, um dirá ao outro na missa do próximo domingo. Mas se faz preciso, sim, discutirmos o assunto; é preciso que a mulher seja ouvida de forma clara e desassombrada; é preciso que a mulher discuta o problema e exponha sua opinião e vontade.

Aqui mesmo na Bahia, soube que uma menina de 14 anos morreu na semana passada depois de ter o útero perfurado por agulhas numa tentativa de aborto malsucedida - tornou-se estatística - e uma adolescente de 18 anos está presa faz muitos dias porque decidiu interromper a gravidez que somente a ela pertencia. Neste caso, seria melhor que morresse também, como devem pensar algumas autoridades, afinal, "quem pariu Mateus que o balance", sentenciará o meritíssimo.

Não se trata de ser ou não a favor da vida: claro está que todos somos a favor da vida, então que a protejamos e que a salvemos em todos os estágios e não apenas, hipocritamente, numa barriga que não está preparada para recebê-la. Enquanto a discussão não se alarga e se aprofunda, as meninas continuam engravidando cada dia mais cedo, porque são mulheres cada dia mais cedo, porque estão transando cada dia mais cedo e porque estão sonhando cada dia mais cedo. Se é assim, que elas sejam ensinadas também mais cedo a repensar sobre os seus atos e sejam protegidas e sejam reeducadas para que a procriação não se transforme num ato feio e epidêmico, especificado por decreto ou através das leis. Não deixemos a cargo dessas meninas a decisão solitária de se danarem e de se resolverem - abortando.

Ali, na esquina, existe uma clínica de abortamento, vocês sabiam? Não sabiam? Pois é, todas as meninas de 12 a 16 anos sabem onde ela fica. E muitas delas estão lá agora...

Então, o Ministro da Saúde está certo ao defender um plebiscito. Legalizar o aborto talvez permita à mulher um melhor atendimento e um atendimento específico. Não quer dizer com isso que se torne uma prática banal e comum, mas quando for estritamente necessário. Até porque, as mulheres não vão sair por ai fazendo aborto indiscriminadamente, como se se tratasse de um novo modismo e todas elas amanhecessem grávidas amanhã e não quisessem mais ter filhos. Apenas terão o direito de optar sobre suas vidas.

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