Então vejamos os fatos: quem era há bem pouco tempo o mais democrático
dos democráticos? Ele mesmo, o presidente Lula. Quem mais criticou a
reeleição? O metalúrgico Lula, eterno candidato. Quem mais
criticou as ditaduras? O cidadão Lula, o eleitor Lula. Agora, por debaixo
dos panos, vive a tramar um novo mandato, embora não confirme, evidentemente,
e ainda brade aos quatro ventos, "ou seja", jamais pensou no terceiro
mandato, embora tenha dito uma vez - em tom de brincadeira, queremos acreditar
- queria ficar trinta anos no poder.
No entanto, passou os últimos seis anos abraçado a Chavez e cercando
Fidel como quem come pelas beiradas um prato de xerém quente. Não
obstante essas inclinações, aliados seus - o deputado Devanir
Ribeiro, por exemplo, e até o vice Alencar -, começaram nova campanha
para mais quatro anos... Propõem, democraticamente, é claro, um
plebiscito. Oxente, não estamos numa democracia? Assim sendo, para onde
querem mandar a Constituição? Não precisam me responder,
todos já sabem para onde eles a querem. E como o presidente tem aprovação
de 70%, o resultado seria lógico. Dizem para tanto, que Lula já
fez muito - que seja -, mas tem ainda muito o que fazer - verdade. No entanto,
vive sobre os palanques, pelo Brasil afora, berrando que é o "porreta",
que nunca na história deste país houve um presidente tão
extraordinário. O pai do povo, o construtor das bolsas, dos vales e das
cotas. Contraditoriamente, o país vive atolado em greves, greve de tudo
que é jeito, até dos carteiros, por isso, talvez, esta carta não
chegue às mãos do presidente, mas se chegasse, ele diria do mesmo
jeito, que eu faço parte da elite, por isso reclamo. Faço não.
Faço parte, sim, daqueles cidadãos que não se deixam influenciar
pelas aparências, que consegue ler uma notícia no jornal e ainda
por cima entender o que ali está escrito, que não acredita num
presidente que tem pavor a cultura e trata os intelectuais como se fossem inimigos
seus, que destila a mesma retórica, dia após dia, desde o tempo
em que era apenas Lula, embora muito tenha abrandado o seu discurso, em alguns
pontos, devo frisar.
Para o bem do país entendo que se deveria urgentemente acabar com a reeleição
e não prolongá-la ao gosto do presidente em exercício -
ou do governador, ou do prefeito -, só porque tem um índice de
aprovação popular elevado. Não queremos Fidel por aqui;
nem mais Médici, quanto mais Lula de novo.
Aqueles que fizerem bons governos, então, que fiquem no imaginário
da população e curtam sobremaneira suas aposentadorias, com a
consciência leve de quem cumpriu com louvor e dignidade seu dever.