Que beleza, tá todo mundo livre!
Senhores bandidos e malfeitores de ficha suja, não há com o que
se preocupar, todos vocês podem se candidatar ao que quiserem: podem ser
vereadores, prefeitos, deputados, senadores, quiçá presidente
da república, oxente! Êpa, para trabalhar na prefeitura como gari,
aí não pode; para ser caixa de um supermercado, aí também
não pode, tem que ter a ficha limpa, sim, senhor. A ficha suja dá
direito a ser político, exatamente, porque para ser político qualquer
coisa serve, aliás, como muitos dos que já estão lá
- e por isso mesmo querem estar sempre lá -, porque lá ficam imunes,
impunes, intocáveis, de papo pro ar, como se diz e se faz por lá...
Quando imaginamos que alguma coisa vai mudar e que os políticos enfim
vão seguir a mesma cartilha de todo cidadão, e vão criar
leis para todo mundo de maneira equitativa, pronto, tudo se transforma, e eles
voltam a burlar a capacidade de o povo se indignar e de o povo pensar ou, pelo
menos, de acreditar que algo vai ser diferente e, finalmente, vamos ser iguais
perante as leis e iguais perante as oportunidades. Nada disso, tudo é
igual como era antes, não somos iguais de jeito algum, aqueles homens
togados reafirmaram que nenhum cidadão pode ser proibido de nada antes
de ser julgado e condenado. E mais: algemas, somente para os ladrões
de cavalo, mesmo assim se forem pobres e desacompanhados de um bom advogado,
e como já se sabe que são pobres, jamais terão um bom advogado,
nem mesmo advogado terão.
Tá certo, chegamos a acreditar que seria diferente, mas acontece que
para um sujeito de ficha suja, estando já envolto com o manto público
da política, nem se fosse Matusalém esse sujeito seria julgado,
muito menos condenado. E não me venham dizer agora que o povo deve ser
responsável por cada um que for eleito, porque o povo não tem
discernimento absoluto para julgar um candidato que fala bonito - como se fosse
aprendiz de santo-do-pau-oco -, e diz que tudo são perseguições
políticas, e diz que tudo são falácias da oposição.
Muitas vezes, nem a própria justiça é capaz de determinar
o quanto esse elemento é inocente, imaginem se o povo - ávido
para descarregar seu voto -, vai determinar quem é quem no jogo político.
O certo é que perdemos mais uma boa oportunidade de moralizar o pleito,
ou, ao menos, meter medo naqueles degenerados que desejam um cargo eletivo.
Ainda que houvesse alguma injustiça, ora, seria muito menos danosa do
que a quantidade de bandidos que entrarão pela porta da frente nessa
política, mais uma vez, "para nos representar".
Para entrar na vida pública, então, o mínimo que se deveria
exigir era uma ficha limpa, transparente, de papel velino.
Mas não se preocupem, eu sei que é utopia.