A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Os de ficha suja

(Achel Tinoco)

Que beleza, tá todo mundo livre!

Senhores bandidos e malfeitores de ficha suja, não há com o que se preocupar, todos vocês podem se candidatar ao que quiserem: podem ser vereadores, prefeitos, deputados, senadores, quiçá presidente da república, oxente! Êpa, para trabalhar na prefeitura como gari, aí não pode; para ser caixa de um supermercado, aí também não pode, tem que ter a ficha limpa, sim, senhor. A ficha suja dá direito a ser político, exatamente, porque para ser político qualquer coisa serve, aliás, como muitos dos que já estão lá - e por isso mesmo querem estar sempre lá -, porque lá ficam imunes, impunes, intocáveis, de papo pro ar, como se diz e se faz por lá...

Quando imaginamos que alguma coisa vai mudar e que os políticos enfim vão seguir a mesma cartilha de todo cidadão, e vão criar leis para todo mundo de maneira equitativa, pronto, tudo se transforma, e eles voltam a burlar a capacidade de o povo se indignar e de o povo pensar ou, pelo menos, de acreditar que algo vai ser diferente e, finalmente, vamos ser iguais perante as leis e iguais perante as oportunidades. Nada disso, tudo é igual como era antes, não somos iguais de jeito algum, aqueles homens togados reafirmaram que nenhum cidadão pode ser proibido de nada antes de ser julgado e condenado. E mais: algemas, somente para os ladrões de cavalo, mesmo assim se forem pobres e desacompanhados de um bom advogado, e como já se sabe que são pobres, jamais terão um bom advogado, nem mesmo advogado terão.

Tá certo, chegamos a acreditar que seria diferente, mas acontece que para um sujeito de ficha suja, estando já envolto com o manto público da política, nem se fosse Matusalém esse sujeito seria julgado, muito menos condenado. E não me venham dizer agora que o povo deve ser responsável por cada um que for eleito, porque o povo não tem discernimento absoluto para julgar um candidato que fala bonito - como se fosse aprendiz de santo-do-pau-oco -, e diz que tudo são perseguições políticas, e diz que tudo são falácias da oposição. Muitas vezes, nem a própria justiça é capaz de determinar o quanto esse elemento é inocente, imaginem se o povo - ávido para descarregar seu voto -, vai determinar quem é quem no jogo político.

O certo é que perdemos mais uma boa oportunidade de moralizar o pleito, ou, ao menos, meter medo naqueles degenerados que desejam um cargo eletivo. Ainda que houvesse alguma injustiça, ora, seria muito menos danosa do que a quantidade de bandidos que entrarão pela porta da frente nessa política, mais uma vez, "para nos representar".

Para entrar na vida pública, então, o mínimo que se deveria exigir era uma ficha limpa, transparente, de papel velino.

Mas não se preocupem, eu sei que é utopia.

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