A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Salvador dos grandes eventos

(Achel Tinoco)

Aquele que lá está, na Tribuna de Honra, usando camisa verde de mangas compridas abotoadas ao punho, olhando sem muito entender os carros passando velozmente junto à mureta, é o prefeito de Salvador João Henrique Carneiro. Aprendera com êxito a lição dos antepassados do PT (Partido dos trabalhadores), qual seja: apresentar resultados positivos bem antes de estes acontecerem efetivamente. Então vamos lá aos fatos: concordamos todos que a Stock Car é um evento portentoso que leva ao público emoção e eventuais paixões. Mas a que custo? Ora está, seus patrocinares, o governo e o município, dirão desdenhosamente que tudo não passa de uns míseros 5, 8 milhões de reais, uma pechincha; a ocupação de hotéis, mas quantos? A visibilidade da Bahia lá fora, afinal, o evento é mostrado para cento e tantos países. Nesta conta, decerto, não se põe o abalo sísmico da estrutura física do CAB (Centro administrativo da Bahia), mesmo que como benefício fique o banho asfáltico - como eles agora apelidaram a borra de asfalto sobre o asfalto velho existente - nem o dia cercado dos funcionários do CAB, para não atrapalhar os preparativos da festa.

Está bem, tem sim os ganhos políticos, e aquele que também lá está, um ou dois degraus acima do prefeito, vestindo camisa polo de listras horizontais vermelhas e azuis, com um copo de água mineral à mão, é o governador da Bahia, o senhor Jaques Wagner, que olha enviesado ao adversário, dois degraus abaixo, tomando todo o evento para si, e outros adversários e correligionários que lá estão a barganhar um capacete que seja. Pergunto a eles, então, e aos bajuladores de ocasião, por que não, se não seria mais proveitoso à população desta cidade, com estes recursos gastos, a construção de um ginásio de esportes? Não recebemos as seleções de vôlei, basquete, futsal, e outras modalidades, porque não temos onde abrigá-las, e do jeito que se apresentam as políticas, tão cedo não os teremos levantado. Ato contínuo, na próxima segunda-feira, quando o circo estiver já com a lona posta, as arquibancadas vazias, o lixo pelas encostas, a populaça pouco vai se lembrar da corrida, somente os mesmos políticos a usarão, e às suas imagens recuperadas, para entrarem em sua casa e pedirem seu voto. Os senhores políticos, crentes que estão abafando, tanto gostam de falar em nome dos pobres, pobres lá não estão entre o prefeito e o governador, os ingressos não lhes cabem ao bolso e os que são para a cortesia, estes vão se acomodar aos bolsos de outras autoridades amigas.

Aquele ainda que lá ainda está, agora sentado, e já enfadonhado com a monotonia dos motores girando em torno, o prefeito, escreveu baianamente sobre a nossa autoestima por tal evento. Não, senhor, a autoestima nos seria mais elevada se vivêssemos numa cidade limpa, praias condizentes, ruas personalizadas, onde o povo tivesse o direito de ir e vir, sem sobressaltos ou atropelos, e assim não tivéssemos vergonha de receber aqueles que nos visitam.

Um povo que respeitasse o prefeito e o governador e também fosse respeitado por eles. Isto sim é autoestima.

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