A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Apagão blindado

(Achel Tinoco)

Blindagem. Agora é de bom tom blindar. Blindam-se tudo: o carro da família, a memória do artista e, principalmente, a ministra-chefe da Casa Civil (candidata à presidência da república), Dilma Rousseff. Nenhum espirro pode-se dar perto dela, é preciso blindá-la; nenhum olhar enviesado, é preciso blindá-la. Já anda às turras com a imprensa, já anda imóvel de tanta blindagem. Bastaria aquela do seu passado. Mas, afinal, por que a ministra precisaria ficar assim tão inescrutável se culpa alguma lhe foi imputada ainda? No caso do apagão elétrico, apenas para exemplificar, não havemos de por sobre as costas da ministra a culpa irresponsável das tempestades, dos raios desvairados e das noites cegas, muito menos o povo "lulista" haveria de se inquietar por causa de um apagãozinho de merda. Ora, dirão eles amanhã, o clima ficou até romântico na madrugada, pudemos finalmente usar as luzes das velas de sete dias para alumiar as ruas sindicais e as casas das boas famílias petistas, porque às outras o breu serviu. Além do mais, ando desconfiado, diz aquele da barbearia, o do MST da padaria, do ministério da alquebraria, isso nada mais é do que uma vingança invejosa da "herança maldita" de certo presidente de antanho. Então ainda não se sabe por que a ministra se protege tanto, ou ainda, por que o governo a esconde tanto dos problemas do país, se ela, possivelmente, vai dirigi-lo daqui para frente. À frente vamos nós, o povo, a parte dele que ainda não aderiu a esse blecaute português sobre uma cegueira coletiva ensaiada.

O restante da turba vem lá atrás.

E talvez não se renda a nenhuma blindagem, mas tenha dentro da cabeça um apagão cerebral bolorento e intemporal.

Sejamos as sombras.

A ministra vai dizer que não sabia da chuva, porque a chuva ainda está por cair sobre a Terra de Oz. Primeiro virão alguns pingos nos por a par da magia, depois uma tempestade benfazeja que fará brotar das linhas de transmissão toda a luz do universo, ao invés de escurecê-lo.

Somente a minha cabeça está hoje sem luz. E digo que o "lulismo" é igual ao bruxismo: ambos nos fazem ranger os dentes.

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