Para o ignorante, tudo que não entende volta-se contra ele e, por isso
mesmo, faz-se preciso combater; para o PT (Partido dos trabalhadores), tudo
que não se converte em aplausos torna-se ofensivo, raivoso e reacionário;
do mesmo modo que tudo que não se reflete nas águas do lago também
não é espelho para Narciso.
Atravessando essa Ponte de Waterloo, e como resposta ao Manifesto de
João Ubaldo Ribeiro, a única alusão plausível que
se pontua nos jornais é a de que o mesmo já não mora naquela
ilha. Ou seja: cunha-se nas mentes adestradas de um povo que, por isso mesmo,
o escritor está tolhido de emitir sua opinião. Ora, tal manifesto
deveria ser recebido aos pulos e aos pulos se deveria discutir apartidariamente
o projeto, a ideia, a obra, o impacto ambiental, o futuro, mesmo que uns sejam
contra, outros a favor, e alguns tão somente neutros. Importaria a saudável
discussão utópica.
Além do mais, pergunta-se:
1- Todo aquele que sai de casa - seja para estudar, trabalhar, conhecer -, deixa
de gostar da casa?
2- Será que perde o direito de pensar, lutar, voltar para casa?
3- Por acaso o governador da Bahia, Jaques Wagner, que tanta ênfase dá
ao fato de o escritor Ubaldo Ribeiro não morar atualmente em Itaparica,
deixou de gostar do Rio de Janeiro, sua terra natal?
4- Ou o cidadão Jaques Wagner, quando visita o Rio, não pode mais
achar feio as ruas, os morros, a ponte sobre a baía da Guanabara?
Portanto, nesses moldes democráticos, como tão bem apregoa o governador,
e toda a gente, João Ubaldo, como qualquer um de nós, tem todo
o direito de se manifestar, de discordar, criticar as coisas da Bahia, do Brasil
e até do mundo inteiro, mesmo ele morando no Leblon, em Tacaembó,
ou na Cochinchina.
Deixemos, pois, de ser bairristas e, principalmente, ignorantes. Tudo o que
ele escreveu, dentre muitos outros que também escreveram - contra ou
a favor -, nada tem de besteirol, mesmo o freguês gostando, aprovando,
concordando ou não.