A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Ainda sobre a violência

(Achel Tinoco)

Não, não se preocupem, a violência não nos atingirá. Ela, a violência, continua distante de nós, do outro lado da cidade, naqueles bairros periféricos, com seus nomes impublicáveis e sua gente esquecida, onde nem o Estado chega - malmente quando precisa recolher das ruas o lixo humano destroçado. Portanto, as brigas, assaltos, agressões, assassinatos não nos abarcam nem nos chocam, já que não os presenciamos ao vivo; fazem parte de uma estatística política para justificar seu voto, num faz-de-conta dantesco de um inferno reescrito, reeditado, televiso.

Porém, na semana passada, um jornalista foi baleado quando andava pela rua, no bairro nobre da Pituba, logo ali; um policial foi assassinado sob as vistas impotentes da família, no mesmo bairro, no mesmo local, no mesmo entardecer; e até um carro oficial teria sido roubado descaradamente. Então nos assustamos sobremaneira com a constatação tardia de que a violência nos alcançara, a mesma da periferia longínqua de regiões metropolitanas; a mesma que deveria ser atribuída à falta de assistência dos poderes públicos, à falta, criminosa, de educação, à falta de lazer e de saúde, à falta de tudo enfim. E ontem, aqui em Ondina, bandidos perseguiram um motoboy - num crime denominado "saidinha bancária" -, atirando a esmo como se não houvesse ninguém pela rua. A rua estava lotada. No meio de toda gente, eu também estava perplexo, petrificado, sem reação. Dois tiros irresponsáveis, sem motivo nem direção. Cada qual que se protegesse com os seus próprios medos; que se escondesse atrás das árvores.

Então percebemos, mais uma vez, que a violência nos chegou aos passeios à porta de nossas casas - bem ao lado do palácio do governo -, indiferente às classes, às cores, às riquezas, aos poderes.

Enquanto isso, o Secretário de Segurança Pública do Estado da Bahia determinava: "A violência é um fenômeno social, mas já está diminuindo gradativamente."

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