A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A pátria de chuteiras

(Achel Tinoco)

Havemos de por mãos às armas para defender a Pátria amada, idolatrada, esbulhada. Salvem-na. Salve-me, ela nos dirá a todos os filhos desta terra, que filhos haja desencantados a menear a cabeça aos governantes. E por que nos chamam à guerra se não fizemos guerra? Porque temos a obrigação cívica e inverossímil de obediência cega a estas e a outras nações de mesmo paço, obcecadas que estão pela esperança e pela paz do pós-guerra, se guerra houver realmente. Os presidentes e os reis provêem a guerra e levantam seus braços em teatrais brados, que se faz necessária a luta para demarcar nossas linhas, daqui até o horizonte, e fincar lá no alto do altar os mourões fronteiriços e ao lado destes nos por de guarda decerto. E nossas águas marítimas não são internacionais, pousemos lá no horizonte repetido umas bóias brancas pouco abaixo das duzentas milhas, e sobre elas, as bóias, supliquemos por olhos vivos a este e aquele bordo de mar-além.

Nessas horas somos todos filhos da Pátria; eles, os dirigentes e presidentes e reis, todos filhos da puta, a puta que os pariu sem Pátria, ou desta Pátria mãe sugam todo a seiva e todo o leite, então nos põe por isso armas às mãos, sem que para tal peleja nos tenha sido preparada a mente e o coração, explicado o motivo, o meio, o fim. Que esta Pátria não cuida dos seus filhos, bem o dissermos, mas cuidemos dela, oh, mãe de chuteiras, somente por razões de gravíssima doença, ou desavenças entre um filho e o outro bastardo que ainda se encontra a meio da estrada a vir, ou perda do título mundial deste ano, porque um filho não abandona matriarca tamanha dentro das quatro linhas, menos por intermédio de uma e de outra guerra tanto santa quanto absurda, que não a distinguimos absolutamente; mais por uma e outra bola que jogamos por aí a nos meter aos pés o senso exato das crias desta nação própria.

Ato contínuo, aquele “zoró” que já lá está em posição de sentido, não sabe por quem se vai perfilar à continência, tampouco para qual batalha chega à frente. Toda gente sai à marcha visitar o rei, o presidente, o político e o técnico. Sim, um técnico que instrua o pelotão à retirada quando a noite cair, uns pela direita, outros pela esquerda, alguns pelo centro; um político que teça a trama de fios d’ouro de forma que ao amanhecer toda a Pátria caiba dentro de suas burras tramadas; um presidente que voa ao mundo todo entardecendo a ditar seus louros de glória e um rei sem trono que apenas decora o picadeiro ao final do crepúsculo. Cagamos e andamos, pois, como nos dissera os de quartel, para todos os filhos da puta dessa Pátria, que jamais porão mãos ao fuzil; mas nos metem à consciência toda culpa... Acabamos por comer esta terra, a mesma que nos há de comer amanhã, que de amor e de esperança a Pátria também carece de ser Jocasta.

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