Uma coisa que sempre percebo quando vou a um hospital visitar um doente, algum
amigo internado na emergência, ou mesmo um familiar, é que os médicos
de um modo geral não conseguem ou não sabem conversar com a família
do paciente, ou com os amigos que vão ali em busca de informações
sobre o seu estado. Parecem, esses e outros profissionais da saúde, que
não têm paciência para responder a perguntas, que para eles
possam parecer inadequadas ou sem sentido ou tão óbvias, muito
menos conseguem suportar a ansiedade dos visitantes. Talvez precisassem de mais
didática e sensibilidade para entender que, para aqueles que ainda não
sabem do que foram acometidos os seus, é uma situação por
demais vexatória e angustiante, porque não entendem os porquês;
não sabem se o que têm seus parentes e amigos é algo muito
grave ou simples "virose", como fazem questão de explicar todos
os que são interpelados. Os profissionais da saúde também
deveriam entender as dificuldades dos visitantes leigos que vão a um
hospital por um motivo ou por outro. Isso também poderia ser considerado
um cuidado paliativo a mais, o que certamente aliviaria as tensões de
muitos dos que lá chegam em busca de informações mais precisas.
É certo, por isso, que se deve perseguir a cura, sempre, mas esta cura
também pode ser estendida aos que cercam o paciente, sob pena de agastamentos
desnecessários e informações desencontradas e mal dadas
- certa vez, um médico disse-me que um amigo meu que fora internado com
sintomas de um AVC isquêmico, tinha, na verdade, uma massa disforme na
cabeça, que indicava presença de tumores, isso tudo ele tinha
visto na tomografia, desse modo que a família já se preparasse
para o pior. Achei que ele não tivera um mínimo de cuidado ao
dizer, sequer tinha visto pessoalmente os exames, apenas supunha. Supunha errado,
outros exames revelaram nada de grave assim. No entanto, os amigos e a família
já haviam sofrido essa primeira derrota e se abatido demasiado.
A família, nesses momentos, cerca esses profissionais da saúde
como se eles tivessem nas mãos o poder da cura e da vida, por isso mesmo,
para esses mesmos familiares, somente o seu ente ali depositado merece cuidado,
e todos os cuidados, exclusivamente, o que, se não acontece assim, acarreta
exaltações. Sim, para eles, é uma questão de dignidade,
de ter na consciência a certeza de que esse paciente foi atendido da melhor
maneira possível e teve todos os cuidados e atendimentos de que necessitava
e foi usado a favor dele toda a tecnologia de que se dispõe no mundo.
Não bastasse tanta responsabilidade, cabe a esses profissionais ainda
o poder quase divino da cura, uma vez que para isso eles foram formados, isso
sob o ponto de vista da família que está ali ao lado à
espera de todos os milagres, e neste caso, não cabe apenas a ideia paliativa
de amenizar a dor, mas de curá-lo definitivamente, afinal, nesses casos,
a morte nunca é levada à questão, jamais pode ser considerada
uma possibilidade ou prevista. Para um parente, um amigo, um conhecido, não,
ele não vai morrer, ele não pode morrer, e nestes casos, os médicos
têm a obrigação de salvar-lhe a vida, para não ser
considerado depois um mostro horrível e sem alma e sem coração.
Por tudo isso, sempre que entro num hospital, tenho a impressão, como
muitas outras pessoas devem ter, de que os profissionais ali envolvidos nas
suas rotinas, não me veem, não veem mais ninguém além
dos seus jalecos brancos, como se só existíssemos da porta para
fora, afinal, ali dentro, eles, os médicos, os enfermeiros, os atendentes,
os auxiliares, eles que mandam, eles que sabem, eles que vivem, portanto, se
ali estamos, basta tão somente que não atrapalhemos seus trabalhos.
Silêncio.
Mas eu acho, de modo muito particular, que não devia ser assim: um paciente
precisa sentir-se confiante, acreditar que os profissionais que o cercam nesse
momento estão para aliviar-lhe não somente uma dor, mas para cuidar
de seu estado geral, quiçá de seu futuro, e uma vez sentindo-se
amparado, pode entrar a visita, que venham os amigos, os familiares para lhe
dar sustentação emocional para superar o tempo de internação
e as adversidades que possam surgir. Mas entenda-se que esses que chegam, muitas
vezes têm muito mais ansiedade do que os que aqui já estão,
por isso mesmo, os profissionais da saúde têm que estar aptos a
atendê-los também, e tranqüilizá-los e informá-los
e confortá-los quando for o caso.
Afinal, a contribuição desses profissionais é, sem dúvida,
imprescindível. Que se possa aprimorá-la sempre.