| Ademir Bicalho |
  |
Pequenos carnavais
(Ademir Bicalho)
Depois de dez anos, resolvi revisitar o Carnaval de Salvador. Sem entrar em
discussões acerca da possível privatização desta
festa originalmente popular, o fato inquestionável é que se trata
de um evento grandioso. São, aproximadamente, sete dias, vinte e cinco
quilômetros, duzentas e trinta entidades carnavalescas e dois milhões
de pessoas. Infinitas diversidades, todas se deixando levar pelos mais variados
ritmos e estilos, reduzindo suas intolerâncias, desobrigando-se de parte
das preocupações da vida moderna - os homens vestem-se de mulher,
as mulheres reduzem suas exigências em relação aos homens,
as crianças (de todas as idades) usam suas fantasias preferidas, amizades
instantâneas são estabelecidas, lábios se encontram e há
aqueles que vão além: todos numa breve e inebriante busca coletiva
pela alegria de viver, mesmo que com certa dose de profanidade.
Este retorno foi divertido, devo confessar, mas também serviu para me
lembrar o porquê de tantos anos de ausência. No meio de todas aquelas
luzes e sons, veio à mente um pensamento do mestre Mário Quintana:
"o excesso de gente impede de ver as pessoas". Por isso, eu prefiro
os pequenos carnavais. Não me refiro às bandas de rua, festas
de largo ou ensaios gerais, mas às confraternizações mais
pessoais. Prefiro os dias descritos por Cecília Meirelles: pequenos desejos,
vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Prefiro os sorrisos lúcidos,
as alegrias suaves, as amizades sinceras. Os foliões de plantão
que me perdoem, mas prefiro um almoço em família, uma viagem com
amigos, um encontro a dois, uma noite de amor.
253 visitas desde 15/03/2011
|