A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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VÁ PRO INFERNO

(Assis)

Vá pro inferno amore mio, de nada adianta agora estas suas palavras doces, se na cama você sempre foi fria e ausente. Eu que me ajoelhei aos seus pés, e pedi para me aceitar como sou, um homem que abandonou a família por amor. Uma paixão doentia, finalmente eu sei, e me arrependo de todos estes anos amargos que passei a seu lado. Mentindo para mim mesmo, mostrando para os amigos uma felicidade que nunca houve, arrancando de mim tudo o que eu tinha de bom.

Nunca vou poder lhe perdoar. Pois você não me deu um filho, só transava com camisinha, dizia que tinha problemas de coração. E eu bobinho acreditava em tudo que dizia, na esperança que um dia você mudasse de opinião sobre crianças. Comprei até uma camisola transparente para você.

Vá pro inferno querida, eu não desejo nada para você, pois eu lhe tirei da rua. Não lhe dei meu nome por que você nunca quis, nossa vida sempre foi uma novela mexicana. Todo dia era discussão, gritaria, palavrão, tantas coisas jogadas no chão. Tanta baixaria que a vizinhança nem se importava mais; você já me xingou de todos os nomes possíveis e eu nunca levantei a mão. Você bem que merecia, mas fazia ameaça, dizia que ia me largar. Somente Deus sabe o que agüentei, por esta mulher. Não fui santo, sou sem vergonha mesmo. Às vezes para ter uma boa noite de sexo era obrigado a fazer você beber, perdi a conta de quantas vezes, este pedaço de mau caminho dormiu nos meus braços, pedindo mais. Então eu tomava um banho e ligava a televisão para assistir o corujão.

Vá pra o inferno benzinho, não sei para onde foi aquele romance que um dia você me prometeu. Não me venha com esta filosofia de banca de jornal, você e este seu racionalismo primário de revista feminina. Você que só lê livro de auto-ajuda, horóscopo, tarô e bruxaria. Eu que via a casa toda desarrumada, as roupas todas jogadas. Percebi que você nunca abriu o Sebastiana Quebra-Galho, e nem o Pequeno Príncipe que lhe dei no dia dos namorados. Mas você só se preocupava em ir ao culto e em pagar o dízimo da igreja. Toda hora comprava roupas no Lojão do Brás, sapatos na Doze de Outubro. Ia ao salão de beleza, três vezes por semana, mas nunca quis fazer uma academia. Eu não ligava, dava dinheiro, gostava de ver você bonita, perfumada e bem arrumada.

Não posso ter boas lembranças do nosso caso, jogar tudo no lixo é uma boa idéia, mas não vou me importar com isto. Eu bem que sei aonde a dor faz ninho, e até aonde a fantasia pode deixar as lágrimas que derramei por uma loucura.

Ontem vi uma mocinha numa esquina, parei o carro e ela perguntou se eu estava afim de um programa. Falei que sim, eu queria qualquer coisa. Ela entrou no carro, me levou para um hotel feio de quinta categoria, com os carpetes sujos e cheirando mofo.

Esta menina de quase vinte anos foi carinhosa comigo, lhe contei toda a minha vida. Ela sorriu e disse que já tinha ouvido esta estória umas cinqüenta vezes. E que as pessoas só dão valor ao que tem depois que perdem. Ela tinha os olhos castanhos, o cabelo pintado de vermelho, vestia uma calça jeans bem justa e uma blusinha sem soutien. No fim, me convidou para passar o fim de semana numa casa alugada na Praia Grande, junto com duas amigas. Aceitei meio sem jeito, não tinha nada mesmo para fazer.

Vá pro inferno minha gatinha, você também deve se lembrar daquela noite que nos conhecemos, na rua Rego Freitas com o Largo do Arouche no centro velho. Nosso grande amor começou deste mesmo jeito, num hotelzinho, depois fomos tomar um sol. Enchemos a cara e dormimos no acostamento da Via Anchieta.

Depois de tanta besteira que fizemos juntos, de conhecermos o paraíso e a glória, de irmos para o Pico do Jaraguá, viajarmos para Campos do Jordão, Itu, Embu das Artes e Caraguatatuba. Assistirmos o jogo do Santos e São Paulo no estádio do Morumbi.

Tudo acabou numa carta de despedida largada no chão da sala, com a casa completamente vazia.

Pois você levou todos os móveis...

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