A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Encurralados

(Assis)

O dia estava quente, este não seria um bom começo, mas foi assim que o destino quis que fosse. O mundo é tão pequeno quando trata de dividir a dor entre pessoas.

Sem querer a vi e não podia dizer que não, pois você também me olhou. Eu parado feito uma palmeira, idiota plantado no meio da calçada da fama. Não precisa me lembrar, fico sempre assim quando a vejo. Nervoso e tímido, tremendo como se um guarda de trânsito fosse me dar um multa por estacionar em lugar proibido.

Devia parar por aqui, tentar outra coisa, mas isto é tão forte e eu nem sei o que sou.

Você me pergunta como estou. (Eu sei lá, penso!) Respondo tudo bem, vamos indo, tudo em cima. E você como está?

Você me olha (me derruba, me faz a coisa menor que existe neste mundo), diz que esta tudo bem. Querendo dizer outra coisa e sorri. Como se o medo apertasse o seu coração doce de menina.

E eu nem apertei a sua mão, estou olhando a sua boca, me esquecendo do mundo a minha volta. O coração volta a bater um pouco mais devagar, nem sei o que vou falar. Não importa quanto tempo passou, eu só queria ter você agora nos meus braços, fui um pouco feliz naqueles dias loucos.

Que xaropada: este romantismo não existe mais, as pessoas são mais frias controladas. Eu digo que você não mudou nada, enquanto bato na minha barriga e falo que engordei bastante, e que ainda estou morando com a Maria e que minha filha já tem quatro anos.

Você parece desapontada (eu devia fazer academia, me cuidar um pouco). Resignada com a vida, você diz que tem de ir embora, que tem coisas para fazer. E eu nem sei da sua vida, se está com alguém, como vai indo o seu trabalho. Sou homem, não sei conversar sobre estas coisas e nada me veio na cabeça.

Eu digo que entendo, que depois ligo e nem sei mais o seu telefone. Você diz adeus, vira as costas e atravessa a rua sem olhar para trás.

Reparo que continua magrinha, perfumada, que os cabelos estão pintados e tem umas pulseiras de prata no braço.

Será que você estava de carro, eu devia ter oferecido uma carona, ou mesmo um convite para tomar café. Conversar até sobre o futebol, matar esta saudade que nos lasca o peito e torna a cidade uma garrafa de vidro fedorenta.

Mas agora é tarde a esperança não bate duas vezes na mesma porta, sigo tropeçando no meu caminho. Vou pensando sempre em você, como faço a mais de vinte anos, todos os dias. Escrevendo, fazendo poesia, até o momento de tudo se acabar.

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