Quando os carros passam nas retas quase voando, o público delira. Ouvindo
o barulho ensurdecedor dos motores e fascinados com o colorido das carenagens
dos bólidos. Uma sensação breve que se repete ao longo das
setenta e poucas voltas do Grande Prêmio de Interlagos. Todo ano o circo
da Formula Um é montado e, durante uma semana, as equipes trabalham ajustando
os carros ao circuito Tudo é calculado ao extremo, as máquinas fazem
todo o serviço. Telemetria decide uma corrida, diria o narrador do evento.
Enquanto a tecnologia de ponta desfila feito uma modelo internacional, desde os
macacões dos mecânicos aos rádio-comunicadores. Todas as reações
de um piloto são filmadas, mostradas por câmeras on board.
Fico imaginando se a conquista do espaço trouxe algum benefício
direto a estes controles que ficam nos volantes dos carros. E se aqueles pequenos
sensores colocados com fita adesiva no chão serão retirados ao final
da noite.
Cuidados são tomados com a pressão e o tipo da borracha dos pneus.
Montanhas deles, que depois de alguns quilômetros viram sucata.Tantos detalhes
se perdem, existe mesmo um excesso de informação. Desde a pintura
das faixas na pista, colocação dos guardrails. Ondulações
do asfalto, corte da grama. Distribuição das barreiras de pneus,
altura das zebras. Treinamento dos bandeirinhas e da equipe médica. Decoração
da sala de imprensa e da torre de cronometragem. Conferência de credenciais
pelos seguranças. Você vê helicópteros subindo e descendo
a todo momento. Um evento automobilístico deste porte é uma loucura
bem comportada, apesar de um pouco de animação da torcida nas arquibancadas.
O local onde está o autódromo é invadido impiedosamente por
multidões de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Nunca
houve tanta lente apontada para um evento mundial, se todos estivessem no Iraque
saberíamos da verdade e onde estão escondidas as tais armas de destruição
em massa. Coisa que nem as dezenas de satélites espiões enxergam
A poluição visual se destaca, praticamente em cada centímetro
disponível existe propaganda no autódromo internacional José
Carlos Pace. Que chegam até a confundir e a atrapalhar a visão da
pista. Afinal são centenas de palavras em línguas estrangeiras,
quase sem nenhum significado para nós brasileiros. As gigantes multinacionais
gastam milhões de dólares para aparecerem, aos olhos de uma elite
privilegiada. Dinheiro que vai para o bolso de poucas empresas. Manipulação
de interesses públicos e privados.
Tudo muito bonito, apesar do ingresso caro. O mundo acompanha o evento pela televisão
ou pela internet, e até as emissoras de rádio cobrem o evento. Afinal
a imaginação leva o homem a qualquer lugar, quer dizer os fãs
e espectadores.
Apesar desde formato de espetáculo a Formula Um já não é
mais um esporte, isto se perdeu em algum momento da história do automobilismo.
No instante preciso em que o amadorismo cedeu espaço para o profissionalismo
sem coração.
O que determina a vitória de uma ou outra equipe são meros segundos,
alguns centésimos a menos acumulados nos cronômetros digitais. O
trabalho da equipe é cada vez mais importante, um erro de um resulta em
fracasso e derrota.
A precisão quase absoluta do piloto, transforma o homem em passageiro,
cuja única finalidade é apertar os botões na hora certa.
Estou simplificando, talvez sim. O piloto é um homem-máquina, a
coisa na Terra que mais se parece com um robô. Um conjunto mecânico-orgânico,
chamado carro de corrida. O piloto na verdade é um simples acessório,
um componente de carne e osso programado para uma seqüência de operações,
previamente ensaiadas a exaustão, chamadas de: ultrapassagem, aceleração,
tomada de curva, desaceleração, freada, direção defensiva,
largada, correção de saída, parada no box para troca de pneus
e abastecimento. Não necessariamente nesta ordem.
Em breve não teremos mais pilotos arriscando a frágil vida contra
a velocidade.
A tecnologia retirou a humanidade deste esporte.