Dia 30 de junho de 2005, uma quinta-feira. Um dia absolutamente normal para
a maioria dos habitantes da cidade de São Paulo, não houve nenhum
acontecimento, nenhuma tragédia. Nada que merecesse a primeira pagina
do jornal Folha de São Paulo. Apesar de estarmos em pleno inverno, a
noite estava bem quente. O termômetro em casa marcava 24 graus Celsius.
Às 19 horas tomei o ônibus Ana Rosa na avenida Parapuã na
vila Brasilândia, zona norte. Vestindo um pesado casaco de jeans, suando
e reclamando da demora do coletivo.
Depois de um passeio de 75 minutos pelos bairros da Freguesia do Ó, Limão,
Pacaembu, Perdizes estou próximo do meu ponto de chegada. Um enorme congestionamento
na avenida Dr. Arnaldo avisa que ainda é hora do rush.
Quando passamos pelo túnel sob a Av. Consolação, levanto
e dou sinal de parada. Nem precisava, muitas pessoas descem aqui também.
Estou em frente ao majestoso Conjunto Nacional na avenida Paulista, um dos símbolos
máximos desta megalópole, e por conseqüência da civilização
humana.
Como não sou sociólogo nem filósofo continuo andando. Cruzo
a badalada rua Augusta, e entro na famosa Haddock Lobo (que desculpem a minha
santa ignorância, mas não tenho a menor idéia de quem tenha
sido!).
Depois de uns 10 minutos entro numa pizzaria de esquina, chamada Margherita
(uma especialidade de pizza; que eu gosto, pois sou vegetariano a mais de 30
anos).
Logo três senhores de cabelos "levemente grisalhos" (um dos
presentes da experiência de vida), acenavam para mim. A casa estava cheia,
algumas moças bonitas destacam-se como flores no meio de rostos desconhecidos.
Caio na real, elas nem notam a minha presença.
Dirijo-me bravamente para os três senhores, desviando dos garçons.
Depois dos abraços, apresentações e cumprimentos. Sento
na mesa, meio sem saber o que falar. Agora não tem mais jeito, este momento
não será esquecido, não é todo mundo que pode reencontrar
os seus colegas do tempo de ginásio.
Eu fui aluno do Liceu Coração de Jesus que, apesar de estar em
decadência nestes últimos anos, já foi um dos grandes colégios
deste estado, freqüentado por parte da elite da classe media paulistana.
Eu somente freqüentei as aulas pois tinha uma bolsa de estudos que custeava
parte das mensalidades.
Este encontro depois de mais de 30 anos só pode ser possível por
causa da Internet, do Orkut e pela persistência do Homero em nos fazer
reunir. Logo a mesa foi se enchendo, chegaram outros. Alguns reconheci no ato,
outros estão um pouco mudados. Afinal, éramos todos jovens naqueles
anos dourados, andávamos de bonde. Bebíamos cerejinha, grapette,
seven-up. Jogávamos bola de meia nos corredores, fazíamos guerra
de bolinhas de papel.
Fiquei muito feliz de rever estes meninos, nunca havia imaginado que isto viria
a acontecer. Estávamos ali, não todos, coisas da vida. Somos sobreviventes
de uma geração que mudou o país. Passamos de uma feroz
ditadura para uma frágil democracia. Saímos do milagre econômico
para uma economia sem saída. Resistimos ao plano Collor, ao FHC, e ao
FMI. Largamos em algum lugar as máquinas de escrever e fomos direto para
as impressoras a laser. Dos telefones de disco aos celulares de terceira geração.
Dos discos de vinil aos mp3. Dos gordinis e DKWs aos Hondas.
Mas lembramos nas conversas de todo mundo, dos que eram quietos e dos bagunceiros.
As lembranças foram surgindo, nome dos professores até o pipoqueiro
foi citado. Quem pegava o lanche do Schuster, quem colava, quem soltava barbantinho,
quem jogava bola.
Do nosso tempo de colégio era disto que falávamos, não
de política nem do campeonato brasileiro de futebol. No fim, depois de
alguns chopps, pedaços de pizza, várias fotos, além da
clássica na porta, que penso em por no álbum, assim que eu achar
uma daquelas impressoras de qualidade. Despedimo-nos com a promessa de um novo
e breve encontro, desta vez com mais alguns companheiros.
Na volta dentro do ônibus, eu pensava em quanto deixei para trás
na minha vida. Em quanto eu fui feliz junto com aqueles meninos, hoje todos
na turma do bigode (Homero, Cesar, Dimitre, Pardo, Lobo, Botura, Christian,
Devair). Será que foi um sonho? Talvez eu estivesse sonhando!