Não importa qual seja a competição, sou titular da sua
seleção. Para mim qualquer peleja é sempre disputa de copa
do mundo, debato-me com as nuvens se necessário for. Não precisa
ser um bom técnico para conhecer as minhas qualidades, e saber também
das limitações. Já não temos mais um Cláudio
Coutinho ou um Telê Santana, para agradar a gregos, troianos e descendentes
de italianos. E depois de um modesto coletivo deixar os repórteres e
comentaristas futebolísticos sem resposta, com a simplicidade de inovações
impensáveis, dentro das quatro linhas sagradas.
Não sou um craque nem jogador polivalente, não driblo à
toa, não agrado a torcida de casa, não subestimo o adversário,
respeito as regras do Charles Miller. Mas sou eficiente e mortal, este é
o meu jogo, esta é a minha vida. Uso bem o corpo e faço da inteligência
uma arma fatal. Tenho a malícia sul-americana, a ginga latina e o talento
brasileiro na corrente sanguínea. Tudo herdado do berço dos sonhos
de um torcedor fanático pelo São Paulo Futebol Clube que não
sabia nem bater tiro de meta.
Com disciplina augusta, agüento firme dois tempos e a prorrogação.
Não tiro o pé na hora da dividida, dou carrinho e empurrão
se for preciso. Mas não abuso da força física nem sou desleal.
Faço faltas em último caso, como num bloqueio de contra-ataque
ou um deboche do ponta direita. Trato a redonda de couro com carinho, armo as
jogada sempre com poesia. Conheço um bocado das mumunhas da esfera de
couro, não dou de bico nem mato a bola na canela. Sei dos caminhos para
a meta adversária, adoro encurtar o gramado com minhas passadas de corredor
de maratona.
Corro pela lateral do campo, chego ao fundo em overlaping (sobreposição).
E mando o cruzamento fechado com perigo para o guarda-metas inimigo. Tabelo
sem afobação, progrido com rapidez e decisão. Faço
parte da equipe, acompanho o treino tático. Esforço-me no exercício
físico e no aquecimento. Entendo o que quer dizer ponto futuro, polivalência,
quadrado mágico e 4-4-2. Suo a camisa do time e não desperdiço
o gás num lance duvidoso.
Tudo que sei até agora. Aprendi jogando com bola de meia e tampinha de
guaraná. No corredor do prédio em que eu morava e no ladrilho
do colégio salesiano. Só mente muito depois é que consegui
me sentir um jogador com calção, meia listrada e camisa numerada,
jogando com chuteira de trava de madeira. No campo de terra do Clube Sul-americano
do Bom Retiro ou no gramado do Clube da Academia da Polícia Militar.
Gosto de futebol, é a minha verdadeira e única paixão,
apesar de você dizer que não. Amo defender e atacar, marcar implacavelmente
os adversários. Manter a saída de bola sobre pressão, no
popular abafa. No córner, subir para a área em diagonal. Estar
sempre bem colocado para surpreender o goleiro com um chute colocado ou com
uma bomba da intermediária. Cuido bem do meu setor do campo e somente
reclamo de uma substituição injusta ou uma expulsão por
um árbitro ladrão. Não nasci para ficar no banco de reservas,
por isto não abandono o campo sem estar coberto de sangue e lama. Contra
fatos não existem argumentos nem contraceptivos.
Tudo o que quero é balançar as suas redes, ouvir os seus gritos
e merecer o seu aplauso. Deixar o público nas arquibancadas em pé,
atônito, surpreso. Enquanto saio sambando com faixa de campeão
no peito e coração cantando Gonzaguinha!