Acordo na madrugada , a rua silenciosa como um túmulo desocupado .Ouço
o vento bailador fazendo penitência , varrendo papeis e coisas perdidas
no asfalto .Deve estar se aproximando uma tempestade , as cortinas dançam
excitadas . A eletricidade estática espalha no ar , o cheiro de duendes
apodrecidos e plantas mortas . Ao longe os relâmpagos finos cortam os
céus , brilhando em luzes multicoloridas e disformes.Que desafiam a física
quântica e sorriem para as flores .
Escrevo enquanto aguardo o sono retornar e levar este pedaço de carne.
Para outro lugar , um lugar onde eu possa ficar perto de quem eu amo.Na quadratura
de uma posição pós fetal. Por alguns momentos eternos ,
por delicados instantes fluídos e inexplicáveis. Por Todos os
sons dos sinos das igrejas de domingo , sinto tanto a sua falta. Durante o dia
, o trabalho ocupa o tempo e suporto bem a ausência. Mas quando chega
a noite e retorno para casa. Desaba o mundo , não tenho mais vontade
de fazer bagulho nenhum .Ligo o rádio , ouço música . Pego
um livro clássico, folheio alguns capítulos. Tento carregar os
olhos com o cansaço das letras e do tédio. Quero desesperadamente
dormir . O reino de Morfeu é meu refúgio , a taberna onde o inconsciente
bebe o sumo da uva e seiva do orvalho.A sagrada montanha melancólica
que arruina minha alma desorientada. Embriagado com o nada , olho o teto próxmo
. Imagino estrelas mortas e constelações desfeitas.Estou confinado
entre quatro paredes e a rotina estapafúrdia do escritório.
Um arpão de aço inoxidável cirúrgico ,atravessou
a pele de broto . E feriu profundamente o pensar , logicamente pensei na circustâncias
da morte e na outra existência do espelho da Alice. Nadei desperado enquanto
o fundo escuro se aproxima lento. Agoniado pelo canto satírico de Netuno,
deixei-me levar pelas correntes marítimas. Perto dos rochedos da solidão
, ouvindo os estrondos das ondas. Despertei da dor , procurando a resposta para
o enigma da Esfinge . Não vou conhecer mais Atlântida , nem ficar
amarrado nas velas enfurnadas e brancas do Holandes Voador (Der fliegende Holländer).
Os marujos cantarolam no nevoeiro (Steuermann ,Lass Wacht)
Por alguma razão encantada fico boiando nas aguas perto dos costões
, nenhuma fera veio me atacar . Descanso e sangro , um rastro rubro singra o
azul sem fim do oceano.
Não estou falando de você , e nem preciso . Sou um fiapo no seu
vestido alaranjado de fim de semana. Por todos os sinos das igrejas de domingo
, eu sinto tanto a sua falta . Que a dona loucura não quiz aceitar este
homem não crescido. Olhou-me para dentro espiando os defeitos na iris.
E feito o raio-x de pronto socorro municipal rascunhou os ossos deste sofredor
. Sorriu agudamente , feliz por não encontrar a residência de Baco.
E um naco que fosse de sanidade. Por fim assinou um atestado de boa conduta
e tributou-me um poema . Despediu-se com se chutasse um cachorro ou se cuspisse
num bebado .Este território transitório esta cansado de amores
eternos!
(Abril 2006)