A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Mensagem De Amor Número Quinze

(Assis)

Acordo na madrugada , a rua silenciosa como um túmulo desocupado .Ouço o vento bailador fazendo penitência , varrendo papeis e coisas perdidas no asfalto .Deve estar se aproximando uma tempestade , as cortinas dançam excitadas . A eletricidade estática espalha no ar , o cheiro de duendes apodrecidos e plantas mortas . Ao longe os relâmpagos finos cortam os céus , brilhando em luzes multicoloridas e disformes.Que desafiam a física quântica e sorriem para as flores .

Escrevo enquanto aguardo o sono retornar e levar este pedaço de carne. Para outro lugar , um lugar onde eu possa ficar perto de quem eu amo.Na quadratura de uma posição pós fetal. Por alguns momentos eternos , por delicados instantes fluídos e inexplicáveis. Por Todos os sons dos sinos das igrejas de domingo , sinto tanto a sua falta. Durante o dia , o trabalho ocupa o tempo e suporto bem a ausência. Mas quando chega a noite e retorno para casa. Desaba o mundo , não tenho mais vontade de fazer bagulho nenhum .Ligo o rádio , ouço música . Pego um livro clássico, folheio alguns capítulos. Tento carregar os olhos com o cansaço das letras e do tédio. Quero desesperadamente dormir . O reino de Morfeu é meu refúgio , a taberna onde o inconsciente bebe o sumo da uva e seiva do orvalho.A sagrada montanha melancólica que arruina minha alma desorientada. Embriagado com o nada , olho o teto próxmo . Imagino estrelas mortas e constelações desfeitas.Estou confinado entre quatro paredes e a rotina estapafúrdia do escritório.

Um arpão de aço inoxidável cirúrgico ,atravessou a pele de broto . E feriu profundamente o pensar , logicamente pensei na circustâncias da morte e na outra existência do espelho da Alice. Nadei desperado enquanto o fundo escuro se aproxima lento. Agoniado pelo canto satírico de Netuno, deixei-me levar pelas correntes marítimas. Perto dos rochedos da solidão , ouvindo os estrondos das ondas. Despertei da dor , procurando a resposta para o enigma da Esfinge . Não vou conhecer mais Atlântida , nem ficar amarrado nas velas enfurnadas e brancas do Holandes Voador (Der fliegende Holländer). Os marujos cantarolam no nevoeiro (Steuermann ,Lass Wacht)

Por alguma razão encantada fico boiando nas aguas perto dos costões , nenhuma fera veio me atacar . Descanso e sangro , um rastro rubro singra o azul sem fim do oceano.

Não estou falando de você , e nem preciso . Sou um fiapo no seu vestido alaranjado de fim de semana. Por todos os sinos das igrejas de domingo , eu sinto tanto a sua falta . Que a dona loucura não quiz aceitar este homem não crescido. Olhou-me para dentro espiando os defeitos na iris. E feito o raio-x de pronto socorro municipal rascunhou os ossos deste sofredor . Sorriu agudamente , feliz por não encontrar a residência de Baco. E um naco que fosse de sanidade. Por fim assinou um atestado de boa conduta e tributou-me um poema . Despediu-se com se chutasse um cachorro ou se cuspisse num bebado .Este território transitório esta cansado de amores eternos!

(Abril 2006)

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