Aprendi a gostar de carnaval muito cedo, dançando ao lado de minha querida
avó Virgínia e de meus manos João e Astrid. Na vitrola,
as músicas inesquecíveis de Lamartine Babo conduziam o ritmo de
nossos passos e nunca mais as melodiosas criações do Lalá
saíram de nossos corações. Por essa época, eu devia
contar não mais que 6 anos e papai, embora nunca fã da folia,
fazia questão de nos levar a todos os bailes infantis, não sem
antes nos levar ao "corso" para vermos os papangus e nos familiarizar
com o falso negrume do maracatu. Confesso: os papangus e os rostos pretos
dos brincantes da típica dança-homenagem à resistência
negra me metiam um medo danado. Mas adorava me aprontar pra folia, todo ano
uma fantasia diferente, muitas vezes feitas pelas mãos de fada de minha
zelosa mãe. Ficaram cravadas na memória as de Colombina e Havaiana.
E eu sempre a dançar, muito feliz, animada pela orquestra dos clubes.
Com o passar do tempo, maior era o número de pessoas nos salões
para o empurra-empurra. Dançar, o melhor da festa, poucos queriam ou
tinham coragem. Então descobri um lugar onde podia exercitar de fato
a cadência do ritmo nos volteios do corpo: comecei a subir nas mesas.
Naquele recanto que eu julgava secreto, podia ensaiar os passos que quisesse,
rodopiar e remexer conduzida pelo suingue ditado pelos músicos.
Dançar sempre foi uma paixão. Na adolescência, em minhas
andanças na multidão, de vez em quando encontrava uns pedaços
do meu coração: fui atrás do trio elétrico, nunca
fui uma jardineira triste, me senti tantas vezes a própria filha da Chiquita
Bacana, não me perdi de ninguém nem desapareci, vi quando quem
brincava de Princesa acostumou na fantasia, sei do tempo em que nos corações
saudades e cinzas foi o que restou, também aplaudi quem sorriu trazendo
lágrimas no olhar e vi cada paralelepípedo da velha cidade
se arrepiando ao lembrar sambar imortais... porque meu coração
tem manias de amor... Até chegar o tempo de conhecer outros carnavais:
primeiro Recife com seus blocos saindo de Boa Viagem e o desfilar do monumental
Galo da Madrugada, o ritmo contagiante do frevo, as ruas apinhadas de
Olinda, e o eletrizante carnaval carioca, o qual, ao contrário do espalhado
por línguas ociosas, não acontece só no Sambódromo
mas se propaga em muitos e muitos blocos por diferentes bairros da cidade, desde
a Banda de Ipanema, imortalizada no cinema por Paulo César
Saraceni, e da qual é madrinha honorária a nossa inesquecível
Leila Diniz, até os blocos de Botafogo, Humaitá,
Tijuca, Jacarepaguá, Copacabana, Grajaú e tantos mais.
O espetáculo do Sambódromo é acontecimento incomparável.
Quem nunca presenciou, não sabe o quanto deixa de pulsar o coração
que assiste ao desfile apenas pela tevê - apesar de sua competente transmissão.
Diversas vezes estive no verdadeiro templo do Samba, em diferentes pontos da
harmoniosa Passarela dos traços de Niemeyer, emocionando-me, cantando,
dançando, vibrando enfim com a evolução singular deste
espetáculo magistral a atrair turistas e gente de bom gosto do mundo
todo. Impossível não se contagiar com este alumbramento de
festa que é o Desfile Oficial das Escolas de Samba do grupo A do Rio
de Janeiro. Há quem diga: o carnaval carioca virou coisa pra turista.
Pois se turista é todo aquele que se embriaga com o belo, faço
questão de ser TURISTA. Nesse caso então, é um
Luxo ! E por gostar de me sentir turista, sem perder o espírito de quem
aprecia a alegria e ama a dança, sugiro: Turista de todos os cantos
do país, e do mundo todo, permita-se enfeitiçar pela magia da
dança afrobrasileira, geradora de nosso delicioso samba e cacumbi,
berço de nossos calangos e boi-bumbás, encantados parafusos e
congadas, cocos e carimbós, capoeiras e maracatus. Em especial, quero
falar pra você, que eu, amante do samba de primeira hora - este ritmo
Patrimônio Nacional, do qual são expoentes, entre tantos outros,
Ary Barroso, meu querido Lalá, Nei Lopes, Nélson Sargento, Cartola,
Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira
e o monumental Chico Buarque -, também sei e gosto muito de gingar no
maracatu. Entrando na roda, descobri: quem não é bom sujeito é
aquele que "inventa" que pra dançar maracatu é preciso
uma certa ciência, um certo aprendizado, que leva anos e não é
pra todo mundo. Pura vontade de conservar num gueto uma euforia corporal que
pode, e deve, ser repartida com quem quiser. Tão fácil quanto
beber água. Feito Tambor de Crioula, da aconchegante
capital maranhense: basta ouvir o ritmo e mexer o corpo. Os gingados,
com maior ou menor malemolência, dependem da aptidão rítmica
de cada um. É como se você começasse um samba de breque,
entrasse numa evolução de maculelê, viajasse num ritual
afrodescendente misto de lundu, capoeira e reggae, emergisse numa gostosa levada
de dança de rua, onde o sapateado e os passos de jazz aprendidos na academia
somam-se ao punk da Freguesia do Ó, terminando por darem-se
as mãos para derramar na avenida a saudação da alegria,
o frenesi da dança e a liberdade de ser e estar - estes sim, únicos
comandantes da fartura saudável produzida pela junção de
culturas que atende pelo nome Brasil.
Empresto meus passos ao Maracatu Nação Fortaleza
desde sua estréia no carnaval passado. Na avenida, o batuque é
moderno, referenciado historicamente, fruto da dedicação e intensa
pesquisa do cantor/compositor Calé Alencar. Este ano, vamos reverenciar
o Romance do Pavão Mysterioso, ao qual Ednardo, expoente do Pessoal
do Ceará, divulgou para todo o Brasil através de seu pungente
maracatu de mesmo nome - tema de abertura da novela Saramandaia, em 76, do genial
Dias Gomes - , e por isso é ícone conterrâneo que orgulhosamente
homenageamos na cadência melódica a anunciar "Hoje tem
romance de cordel..." No coração, bate o bumbo e
colore de cores, sons, mistura de ritmos, tradição e alegorias
o mesmo chão calejado pelo desapreço à identidade cultural
arataca, traço tão próprio do atávico espírito
registrado por Adolpho Caminha, forçado a dar passagem para novos
ventos e aos poucos esvaindo-se para mostrar o valor de nossa gente bronzeada,
que nestes dias de folia se renova e pisa o chão e dança
alegre, de cara pintada, ao som da toada do maracatu. Afinal, somos
de loas, angolas e de marés!