A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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E Se as Paredes São Feitas de Giz

(Aurora Miranda Leão)

Sábado, um dia após ter ido ao ar o último capítulo da minissérie JK, na qual teve expressiva participação, Ariclê Perez é encontrada morta. Há evidências de suicídio.

A morte de Ariclê me chocou profundamente. Deveria ter chocado a todo o país. Ariclê era uma de nossas mais competentes atrizes. Poucas aparições na tevê, daí o pequeno respaldo popular. Mas em tudo que fez deixou sempre a marca de seu talento singular, quer seja vivenciando Machado de Assis (em espetáculo escrito e interpretado por ela, ao lado de Nélson Xavier, sob a direção de Bibi Ferreira) e Cecília Meireles no teatro, a professora de Pixote no filme homônimo de Hector Babenco ou mesmo como a Elisinha da novela Anjo Mau ou a madre superiora opressiva de A Casa das Sete Mulheres.

Bela, elegante, gestos refinados, voz marcante e postura sempre altiva e terna, Ariclê compunha um naipe de atrizes onde se enquadram Miriam Muniz, Lélia Abramo, Yara Amaral, Cleide Yáconis, Cacilda Becker, Lea Garcia, Esther Goes, Isabel Ribeiro, Ruth de Souza e Regina Braga: todas de excepcional talento, respeito entre seus pares, galeria de grandes personagens e quase nenhuma popularidade. Pela opção preferencial pelo palco. Na tevê só fizeram papéis de segundo plano. Talvez porque elas mesmas preferissem assim. Mas por essa opção também pagaram caro. Ariclê, infelizmente, com a vida.

No Teatro, construiu uma carreira pautada pela seriedade, respeito dos colegas e da crítica especializada, personagens fortes e atuação em grandes textos da Dramaturgia Mundial. Casada por uma década com o saudoso e genial Flávio Rangel, Mestre da Direção, Ariclê começou a chamar a atenção fora de sua terra natal, São Paulo, quando atuou em Pixote.. Em minha memória, ficará para sempre marcada sua espetacular atuação no espetáculo Freud, No Distante País da Alma, direção do marido Flávio, em 1985, com Edwin Luisi no papel do grande psicólogo.

O último trabalho no cinema ("Quanto Vale ou é por Quilo ?", filme de Sérgio Bianchi) lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante na última edição do Cine Ceará. Vibrei com o Troféu Eusélio Oliveira concedido a Ariclê. Nada mais justo. De certa forma, apazigua a alma saber que a atriz tão admirada teve seu talento reconhecido também em minha terra.

No último papel, Júlia (mãe de JK na minissérie de Maria Adelaide Amaral, Alcides Nogueira e Geraldinho Carneiro), homenagem ao ilustre Presidente, coube a José Wilker o papel-título. Foi com Wilker a última cena gravada por Ariclê: a mãe de JK já vinha doente há algum tempo, sofria de Alzheimer mas tantas eram as turbulências na vida do Presidente, que a irmã e o cunhado ocultaram dele os problemas de saúde de D. Júlia. Quando JK finalmente fica sabendo do estado da mãe e arranja tempo para ir a Diamantina visitá-la, acontece então o último encontro dos dois. JK entra no quarto, a mãe está deitada e apenas consegue olhá-lo. Ele se curva para beijar as mãos dela e lágrimas caem dos olhos de ambos.

Estranhos caminhos traça o destino: era o último encontro de JK com a mãe, a última cena de Wilker e Ariclê, o último momento de atuação dela. Durante a gravação da minissérie, Wilker presenteara a amiga de tantos anos com um exemplar de seu livro Como Deixar um Relógio Emocionado. Ariclê gostou tanto da obra que revelou ao amigo a intenção de transpor um dos textos para o palco.

Pois ao ler essa notícia, revelada agora por conta do triste e inesperado fim de Ariclê, sinto-me duplamente comovida: primeiro porque ela era uma das atrizes de minha maior admiração e sua partida foi dessa forma tão abrupta e por que não dizer injusta ? E segundo porque Ariclê também se sentiu enormemente tocada por um dos mais belos livros que já li: Como Deixar um Relógio Emocionado, o livro de Wilker cujas crônicas são inspiradas por grandes momentos da arte fílmica. E assim como Ariclê revelou a Wilker o desejo de levar ao palco um de seus textos, eu também há alguns anos acalento o sonho de transpor um dos textos de Wilker para a tela, e já tive oportunidade de dizer isto ao querido conterrâneo. Mas o mais tocante nessa história toda, falando ainda em coincidência, refere-se à crônica escrita sexta passada, último dia da minissérie JK, na qual ressalto as muitas qualidades da obra e, sobretudo, o trabalho impecável de Wilker. Acabei escrevendo uma quase crônica-homenagem. E por isso o artigo ganhou o título de "Como Deixar uma Nação Emocionada".

Que é como me sinto mais ainda agora, ao lembrar com tristeza da partida de Ariclê e com saudade de sua interpretação tão singular e ao constatar que ao realizar a cena final do encontro de JK com a mãe, Wilker e Ariclê antecipavam uma sensação emotiva de término, final, melancolia, até quando ?, metafísica e infinito que hoje sabem exatamente o que significa os que conviveram com a atriz por estes anos tão breves e tão intensos.

A partida prematura e inesperada de Ariclê Perez simboliza um tempo onde as virtudes humanistas são relegadas ao esquecimento, os valores civilizatórios submergem ante à mediocridade que se espalha célere em todas as áreas, a forma prevalece sobre o conteúdo, o aparentar se impõe sobre o Ser, num traçado hostil e cruel de um tempo desprovido de valores morais, DILACERANTE para quem conjuga os verbos Amar, Repartir, Conviver, Solidarizar-se. É emblemático o fato de Ariclê ter partido justamente no mês consagrado às mulheres e ao Teatro. Aí está implícito um significado muito forte, ao qual assistimos com pesar e extremo desencanto: vivemos um tempo árido demais, insuportavelmente massacrante para almas tão lapidadas pelo conhecimento do outro, como era a alma de uma atriz do quilate de Ariclê. No ritmo desenfreado em que vai, a humanidade caminha sabe-se lá pra onde. E as vítimas são sempre as pessoas mais necessárias. Parece de tempos em tempos algumas dessas são chamadas para nos evidenciar mais uma vez: os rumos estão errados, os condutores perderam o controle da direção e a Dramaturgia está perdendo de goleada para a vida real.

A morte de Ariclê Perez é pois o símbolo de um tempo em decadência, um tempo onde as pessoas se distanciam cada vez mais da aragem do terreno, possibilitadora do encontro com o outro e consigo mesmo, da aceitação do diferente como complementar, do divergente como adiáforo, do simples como valor relevante. Um tempo no qual torna-se cada dia mais difícil a construção do sonhado mundo de convivência harmoniosa no planeta pela falta de valores civilizatórios e princípios morais sólidos, justos e libertários. Do jeito em que vamos, muito brevemente estaremos entrando num círculo incontrolável de incongruências, danos evitáveis e bárbarie.

Descanse em Paz, Ariclê.

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