Quase todas as mortes são inaceitáveis. A de
John Lennon dói até hoje como um punhal amolado e sem fim.
John Lennon foi alguém muito adiante de seu
tempo. Pacifista vocacionado, Feminista como poucos, amante da natureza e defensor
da Ecologia numa época em que pouco se falava disso, Revolucionário, e educador
pelo exemplo. De bom humor inconteste, na amplidão de sua presença civilizatória,
Lennon fará sempre falta.
Rever suas imagens pacifica, comove, faz brotar
esperança, incomoda, mas acima de tudo, dói muito rememorar tudo, a vida de
John, sua música, o cidadão Lennon, o marido apaixonado, pai dedicado, artista
idolatrado, sua morte abjeta. E sabê-lo não mais entre nós, abrupta e inexplicavelmente
assassinado. Porque por mais saibamos e haja denúncias cada vez mais sérias
sobre seu assassinato, será sempre inadmissível, de qualquer ponto-de-vista,
o assassinato estúpido de um Homem com a força moral e o exemplo humanitário
de John Lennon.
Não sou Beatlemaníaca, mas também não vejo nenhum demérito em sê-lo.
Cresci ouvindo os quatro geniais de Liverpool porque minha irmã sempre foi por
eles fascinada. Invejo-a. Aprendeu até inglês por conta dos 4. E tínhamos cada
um o Beatle preferido. O meu sempre foi John. Encantava-me particularmente
seus lindos e longos cabelos cor-de-mel, seu olhar de menino carente e homem
pronto para o amor, a voz incomparável, veludo de seda. O trem da juventude
é veloz - como diz outro querido, Herbert Vianna - e os vagões foram
passando e mais e mais aprofundaram minha clara predileção por John.
Haverá imagem mais forte em favor da PAZ do
que a de John e Yoko cantando Give Peace a Chance de branco, cercados
por uma turma enorme a se avolumar e formar imensa multidão pelas ruas de Nova
York, São Francisco, Los Angeles, e outras cidades americanas ? Apenas um "simples"
violão e a voz límpida e serena do músico inglês, solidariamente engajado em
todas as causas onde o humano estivesse em risco. Generosidade nata. Lennon
juntou/juntava e juntaria sempre multidões para ouvir qualquer coisa. Quando
afirmou serem os Beatles mais conhecidos que Jesus Cristo foi quase trucidado
pelos supostos "arautos da Fé e da Bondade". Estava certo Lennon.
Enquanto esteve à frente da fenomenal banda inglesa, os Beatles foram
mesmo mais conhecidos que Jesus Cristo. Banda desfeita, transformou-se
ele Lennon no grande porta-voz da PAZ, da Ternura, da necessidade urgente de
repensar os valores civilizatórios, da Delicadeza, do cuidado com os bichos
e a natureza, do desvelo com a infância, da afirmação do AMOR como bem fundamental
para o encontro do homem consigo mesmo.
Rever o DVD Lennon Legenda (direção de Simon Hilton e com
arte de Robert Young) é um toque n'alma, às vezes tranqüilo,
muitas outras de profunda tristeza. Imagens belíssimas - como
na música Starting Over - fazem rir, chorar e se emocionar. Percebo
(e qualquer um despido de preconceitos também o perceberá) o quão Lennon amadureceu
e cresceu ao lado de Yoko (nenhum exemplo de beleza feminina, nem erótica, nem
dona de belo par de coxas, nada do que comumente atrai os homens, mas provavelmente
dona de profunda sabedoria e delicadeza, daí ter-se transformado na mulher amada,
companheira de todas as horas, amiga inseparável, na fêmea necessária, na mãe
que John não conheceu). Ao lado de Yoko, a carência do John dos primeiros tempos
de artista, aos poucos vai desaparecendo e começa a aflorar um homem sereno,
de bem com o mundo, mãos dadas com a vida, leveza caminhando a passos largos
pelas ruas e lugares da cidade onde morreu e a qual tanto amava.
Rever John cantando, falando, brincando, exemplo para
o mundo conturbado, anacrônico e em permanente necessidade de mudança como o
é hoje, dá-nos subitamente a impressão de que precisaríamos começar tudo de novo. É possível imaginar Lennon - violão em
punho - e Yoko cantando Dê Uma Chance à PAZ em plena Manhattan,
na faixa de Gaza, no Afeganistão ou mesmo na porta dos maiores estádios do mundo
antes de uma disputada partida de futebol... e ainda assim ver alguém sequer
pensar em levantar uma arma, dizer impropérios, fazer uma grosseria ou usar
de qualquer forma de violência para calar o diferente, abafar a discordância
?
Se você conseguir visualizar cenas assim
ao lembrar ou ver imagens de John, perdão, mas você precisa acordar para a necessidade
simples e urgente de educar sua sensibilidade. Não sabia ? Pois assim como
os bebês precisam aprender até a dormir, a sensibilidade é algo educável.
E como isso produz milagres de convivência.
E se, ao contrário, ao ver ou lembrar John
Lennon você só consegue ver o quanto o mundo estaria melhor e a vida menos
caótica se ele ainda estivesse por aqui, somos irmãos de idéias e sentimentos
e precisamos nos dar as mãos para ver crescer esta enorme corrente de necessitados
e defensores da bondade, da beleza, do afeto, da serenidade e, sobretudo, da
DELICADEZA, tanto e tão bem representada por John em todos os momentos, onde
quer estivesse ele.
São quase 26 anos sem Lennon. Mais
de duas décadas de um mundo que se embrenha cada vez mais em caminhos tortuosos
e sombrios onde a Paz parece perdida em alguma floresta inabitada, onde a Justiça
esconde-se em mosteiros inalcançáveis, onde a solidariedade vive à beira da
inanição, onde o Amor esforça-se para não cair num precipício e onde a ternura
esquece de fazer morada no coração da maioria dos homens.
Imagine um mundo onde John Lennon desse as cartas. Imagine um Terceiro Milênio onde todos nós pudéssemos
celebrar a entrada de um Novo Ano plenos de Esperança e Fé em dias melhores,
sabendo que logo ali, num palco muito próximo de nós e iluminado, Lennon estaria
cantando ao lado de Yoko e do filho Sun suas novas belas composições pregando
o Amor, a Fraternidade, a compreensão entre os povos, o respeito à natureza
e todas as muitas questões civilizatórias das quais ele foi o grande Mestre
do século XX e para as quais ele será sempre um exemplo a ser defendido,
seguido e ensinado às novas gerações.
Penso: Lennon não descansa em PAZ mas vive a
pregá-la, de forma ainda mais bela, serena e delicada, de onde quer que nos
veja e escute, e se apavora com os rumos desta civilização que se julga moderna
e de vanguarda por conta de tamanhos avanços tecnológicos. No plano emocional,
prossegue quase na idade da pedra. Saravá !