A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Consciência: porque é múltipla nossa negritude

(Aurora Miranda Leão)

(Dedicado a Calé Alencar)

Vem chegando mais um 20 de novembro. E, como acontece quase diariamente, me bateu Vininha no coração. Pra quem não atenta logo, Vininha é o apelido carinhoso que os amigos deram a Vinícius de Moraes, o Poeta que foi Tanto que diante dele somos todos muito diminutos.

E lembrar Vininha nestes tempos de Consciência Negra é lembrar de quem guardei estes versos, que nunca me saíram da cabeça - como tantos outros dele: '... o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô. Saravá !'

De meu pai, ganhei meu primeiro LP, justamente um disco de VM editado pela Abril - em formato médio, uma 'inovação' da época. Guardo-o comigo. Relíquia. E falar em Negritude sem falar em Vinícius é como falar de livro infantil sem falar em Monteiro Lobato, ou como falar em música clássica e não lembrar logo Nepomuceno, Villa-Lobos ou Nazareth; falar na Bahia e não lembrar logo Gil, Gal, Caetano e Bethânia, ou como ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel...

Rememoremos: a primeira encenação brasileira, cujo elenco era formado integralmente por atores negros, foi Orpheu da Conceição, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Uma semana em cartaz, 'patrocínio' exclusivo do bolso de Vinícius, memorável ficha técnica: Oscar Niemeyer fez os cenários, Léo Jusi dirigiu, Lila Bôscoli criou os figurinos, Vininha e Tom Jobim criaram as músicas; Carlos Scliar fez todos os desenhos; Djanira, Luís Ventura, Raimundo Nogueira e Scliar criaram os cartazes. Leo Peracchi conduzia a orquestra e Luís Bonfá executava o violão de Orpheu, interpretado por Haroldo Costa. Eurídice era Dirce Paiva; Léa Garcia fazia Mira de Tal e Cyro Monteiro era Apolo. Abdias Nascimento e seu TEN também estavam no elenco: Pérola Negra, Waldir Maia, Chica Xavier, Clementino Kelé, Chico Feitosa. Era a primeira vez que atores negros subiam ao palco do magnânimo Teatro Municipal com uma montagem grandiloqüente, reunindo o melhor para tornar Orpheu um marco na história de nosso Teatro. 

Sobre a montagem, escreveu o Poeta: 'Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país; melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca'.

Tudo que Vinícius fez tem ainda mais valor porque àquela época o comum era o desrespeito ao negro, o desprezo, o relegar à negritude ao ostracismo. O gesto de Vínicius e toda a sua atuação - lê-se em suas muitas biografias o respeito devotado e ensinado aos filhos no tocante aos negros, aos pobres, às mulheres - são uma prova inconteste do posicionamento determinado do Poeta em defesa das minorias (?). Sendo ademais Vinícius um filho da chamada 'Zona Sul', branco e de olhos verdes, Poeta e Diplomata, admirado por artistas e intelectuais, com trânsito em todas as esferas (embora fosse tão mal visto por alguns poderosos, que acabou sendo exilado quando o AI-5 decretou luto à Cultura Brasileira), seu gesto reveste-se ainda mais de Valor pois não legislava em causa própria.

É fato também: não podemos olvidar o pioneirismo e a aguerrida disposição de Abdias Nascimento, merecidamente homenageado este ano com a Ordem do Mérito Cultural pelo Governo Lula, levando adiante as mais diversas plataformas negras com a criação do Teatro Experimental do Negro, de onde revelou nomes como Ruth de Souza e Lea Garcia.

Vale lembrar ainda o pioneirismo de Janete Clair quando criou o Dr. Percival, psicólogo, em sua novela Pecado Capital (grande êxito da Rede Globo), especialmente para o ator Milton Gonçalves. Este é um marco da 

teledramaturgia e não pode ser olvidado. Milton já fizera outro grande personagem na trama de Dias Gomes, O Bem-Amado, na qual viveu Zelão das

Asas... Se formos voltar nosso olhar para a Literatura e o Samba, aí mesmo é que esta crônica não tem como terminar de tão extensa ficará.

Voltemos nossas lembranças para as grandes Damas Negras de nossos palcos e filmes: Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea Garcia, Ângela Correa, Neusa Borges; ou as beldades que enfeitavam nosso Cinema e ninguém mais vê - Luíza Maranhão, Marlene Silva, Adele Fátima, Julcilléia Teles, Aizita Nascimento, Vera Manhães; as belas de hoje, presença constante na tevê - Adriana Lessa, Ildi Silva, Camila Pitanga, Maria Ceiça, Thaís Araújo, Thalma de Freitas e as intérpretes da novela das 21h, Duas Caras; ou lembremos Milton e seu filho Maurício Gonçalves, Antônio Pitanga, Jorge Coutinho, Joel Zito Araújo, Antônio Pompeu, Clementino Kelé, Nélson Xavier, Ivan de Almeida; e os mais moços como Lázaro Ramos, Flávio Bauraqui, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues, André Ramiro, Sérgio Lorosa, Sirmar Antunes, Sérgio Malheiros, Douglas Silva, 'Pratinha' e sua bela filha Marília, e na música - Elisete Cardoso, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Luís Melodia, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Zezé Motta, Djavan, Gilberto Gil, Emílio Santiago, Eliana Pittman, Carlinhos Brown, Martinho da Vila, Martinália, D. Ivone Lara, Virgínia Rodrigues, Leci Brandão, Leny Andrade, a linda Paula Lima e tantos tantos mais; além dos imortais, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Ismael Silva, Moacir Santos, Ciro Monteiro; e Heitor dos Prazeres, Di Cavalcanti, Antônio Bandeira na Arte dos pincéis e telas impagáveis... São tantos que qualquer espaço seria pequeno para citá-los todos. Há intelectuais, líderes e artistas do porte de Muniz Sodré, Nei Lopes, João Cordeiro, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Dragão do Mar, Haroldo Costa, Walli e Jorge Salomão, Zózimo Bulbul, Toni Tornado, Jefersson D, Raquel Trindade... Restam saudades de Grande Otelo, Solano Trindade, Zeni Pereira, Procópio Mariano, Jacira Silva, Mussum, Eliezer Gomes, Sônia Santos... Onde andam Clea Simões e Jorge Coutinho.......... ?

Vamos celebrar nossa negritude - ancestral, transversal, ritualística, emocional, visceral - através de nossa rica produção audiovisual (como exemplo, o movimento cineclubista realiza exibições em todo o país da Mostra AfroOlhar), recheada de obras a nos retratar tão bem como Cafundó (filme de Paulo Betti e Clóvis Bueno); Cidade das Mulheres (filme de Lázaro Farias); A Negação do Brasil (livro e filme) e Filhas do Vento (filme) de Joel Zito Araújo; A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura e Madame Satã, de Karim Aïnouz; Orpheu do Carnaval e Orpheu, o primeiro de Marcel Camus e Vinícius de Moraes e o segundo de Cacá Diegues; Chica da Silva, Ganga Zumba e Quilombo, todos de Cacá. Se formos pra música então, haja vitrola...

Estas obras e estes Artistas não são exclusividade do chamado Movimento Negro. Ou pelo menos não devem ser 'emoldurados' apenas pelos que militam no movimento. A Cultura Brasileira é afinal um belo e original artesanato, qual renda traçada pelos bilros que a voracidade da tecnologia quase está a fazer desaparecer de nossa nordestinidade, onde se aninham referências indígenas, européias e africanas. Portanto, somos todos merecedores de respeito, incentivo e aplauso. Sejamos artífices de uma segunda Abolição - da qual tão bem nos fala o líder Abdias Nascimento - para todos nós, brasileiros de todas as origens, crenças, etnias, tradições e classes sociais.

Todos os nomes aqui citados, sem exceção, são PATRIMÔNIO CULTURAL e ARTÍSTICO, logo, Patrimônio Imaterial do Brasil - '...meu Brasil de todos os santos,  branco, preto, mulato, índio, lindo como a pele macia de Oxum, inclusive, meu São Sebastião... Saravá !'

Sem essas pessoas - e mais uma infinidade delas, lembrando que 'editar é preciso' - nossa Cultura seria mais pobre, nossa história seria mal contada, nossa diversidade seria tacanha, nossos valores seriam medíocres, seria desigual nossa aparência e pálido nosso arco-íris. Quanto mais longe formos na saudação e reverência a todos os expoentes da Arte e Cultura que são negros - porque Arte e Cultura não têm cor; nossas peles é que apresentam matizes diferentes -, tanto quanto devemos louvar e aplaudir aos expoentes de todas as etnias - porque todos que não praticamos guerra, que defendemos a Paz, a Dignidade, a Diversidade, a Ética, a Justiça, a Fraternidade e a Solidariedade, devemos ser exemplo aos que trafegam em  territórios opostos, pregando valores antípodas, decretando a irracionalidade em nome de inexistentes e inconcebíveis padrões superiores.

Porque quem criou o Universo a todos concedeu os mesmos poderes, direitos e deveres; a nenhum discriminou. A ninguém deu mais. A ninguém deu carta, de cor nenhuma, para agir mal com o próximo em nome de coisa alguma.

Portanto, possa este 20 de novembro ecoar em todos as almas como uma data da BRASILIDADE. Um dia no qual todos nós, de todos os credos, corpos, faixa salarial, tipo de cabelo, maneira de ser e estar, jeito de falar e andar, maneira de atuar, cantar e dançar, modo de comer, olhar e estudar, gostos e aptidões diferentes, possamos nos dar as mãos e entrelaçar nossos corações numa mesma emoção cujo único parâmetro seja a Justiça, a Gratidão, o Afeto, o Respeito e a reverência igualitária ao que é Belo, Bom e Justo. Porque não é possível avançarmos décadas no milênio sem progredir na qualidade das relações e ainda continuarmos, forçadamente, a ter de admitir a necessidade de pregar a igualdade e esclarecer sobre a criatura humana - cujas diferenças étnicas são apenas traços legados por um Pintor Único e múltiplo, que a nós criou com extrema maestria, tendo o cuidado de a cada um dotar de um semblante diferente, uma fala diversa; a cada um consagrou o direito sagrado de escolher como quer se colocar no mundo; com uma delicadeza de querubim, tomou nas mãos uma palheta de cores sublimes, só encontrável na natureza, e transmitiu a cada um as matrizes de sua ancestralidade e  descendência, conforme melhor ressoavam n'Alma os padrões por Ele tão generosamente doados ao Universo.

Neste 20 de novembro, deixo uma sugestão a quem pode mais que esta jornalista: o Brasil bem poderia designar o dia do aniversário de Vinícius de Moraes - 19 de outubro - como o Dia da Diversidade Cultural ou o Dia da Reverência Étnica. Data do aniversário do Poeta, músico, compositor, Diplomata, crítico de Cinema, acadêmico, imortal em tudo que fez e de toda beleza da qual a nós todos, brasileiros, nos fez herdeiros. Porque foi Vinícius quem primeiro e melhor fez a ponte entre a música erudita e popular, entre a cultura branca, a negra e a mestiça, e declarou isso em versos que todos sabemos de cor: 'Eu, por exemplo, o capitão-do-mato Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô - Saravá !', e desfila neste incomparável Samba da Bênção uma lista de nomes dos quais sofreu influência direta, com os quais conviveu e aos quais eternizou, em versos, o aplauso, o respeito, a amizade e parceria.

Viva a Consciência Negra !

Salve Negros e Negras do Brasil e do mundo !

Palmas aos Representantes da Cultura Negra !

Aplausos a todos os Brasileiros, de todas as Etnias e de qualquer parte do Brasil, defensores da Paz, da Justiça e da Igualdade Social como um Bem que há muito já devia grassar como lei natural.

Saravá Vininha e todos os Poetas deste meu Brasil, negro, branco, índio, caboclo, mulato, cafuso, mameluco, lindo e multifacético como Vininha, o Grande Poeta da Paixão, do Amor, do Mar e da Mulher Amada, que em nós plantou, sobretudo, a importância do Respeito ao Humano.

VIVA 20 DE NOVEMBRO !

Salve Zumbi dos Palmares !

(Fortaleza, 16/11/2007)
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente