Manhã ensolarada pelo sol frio de julho. Passeava com meus pais e minha
querida mana Astrid: férias na Cidade Maravilhosa. À entrada de
loja na Siqueira Campos, em Copacabana, lembro como fora hoje, paramos perplexos
quando o rádio noticiou a morte do Poeta Maior.
Alguém só capaz de espalhar o Amor, através de seu canto,
sua fala, suas múltiplas atuações, capaz de fazer Dele,
pela Poesia, o Violão e a celebração da mulher amada, seu
grande timoneiro. Sua vida, infatigável busca pelo Amor Eterno, aquele
mesmo o qual nós, os mais sonhadores, nunca desistimos de querer.E este
Amor tão buscado ele só entendia e queria como Paixão.
Por isso, a paixão figura com tanta intensidade em seus versos.
Vinícius de Moraes foi muito além de um grande Poeta, homem
generoso, amigo fiel, parceiro adorável, pai inesquecível. Vinícius
foi quem semeou em nós a esperança sempre indormida de um mundo
mais justo, um viver mais alegre, um cotidiano mais fraterno, um tempo mais
propício aos grandes encontros. Porque deles é feita a parte boa
da vida.
Tantas vezes execrado por ter aderido sem remissão à Música
Popular, Vinícius prestou inestimável serviço à
consolidação da escrita poética no cancioneiro nacional.
Depois dele, e por causa de sua influência, vieram Chico Buarque, Edu
Lobo, Caetano Veloso, João Bosco, e tantos outros.
Nos anos 70, tempo da consagração definitiva da inigualável
dupla feita com o querido Toquinho, de cujo violão brotaram as melhores
notas para os versos de Vininha, foi satanizado por um crítico, um tal
Maurício... (e quem guarda nome de crítico, ainda mais se não
tem competência?): "Eles fazem o que podemos chamar de 'easy music'..."
Vinícius então, sarcástico, seguro e consciente do zelo
dedicado a seu ofício, passou a fazer shows por todo o país, ao
lado de Toquinho. Os shows tornaram-se emblemáticos na história
do movimento estudantil confirmando uma ânsia nacional por ouvir coisas
nossas, ritmos e tons brasileiros com nosso timbre e nosso molejo. Vinícius
e Toquinho lotam auditórios e ginásios: "Agora vamos apresentar
a vocês a nossa easy music..." E a platéia delirava.
Não à toa, é do Poeta e de Carlinhos Lyra, o Hino Oficial
da União Nacional dos Estudantes, criado nos conturbados anos 60. Mas
Vinícius também foi injustamente mal visto pela chamada 'inteligentzia'
brasileira ao aderir aos rituais do candomblé, ao tempo no qual foi casado
com a baiana Gesse Gessy em casamento 'oficializado' pela atriz Nilda Spencer,
também baiana, falecida neste outubro. Vina então mais uma vez
deu provas de seu imenso talento e menosprezo pela ortodoxia dominante: passou
a compor introduzindo os ritmos e o linguajar comumente empregado naqueles rituais
de fé, oriundos da Cultura Negra.
Dessa fase, registram-se canções antológicas como "Meu
Pai Oxalá", "Maria vai com as Outras", "Canto de
Oxalufã" e o estrondoso sucesso de "A Tonga da Mironga do Kabuletê"
(gravada ao lado do saudoso Monsueto).
E Vininha fez muito mais. Espraiou seu canto apaixonado em sonoridades pertinentes
às mais diversas matrizes rítmicas: da valsa ao fox-trote passando
pelo chorinho e a capoeira, deixou legado tão belo e singular que passados
28 de sua dolorosa partida, ainda é novo, atual, eloqüente e instigante.
Sua obra e sua vida estão tão interligadas que é difícil
saber onde começa uma e onde termina a outra.
Vinícius de Moraes agiganta-se a cada dia nas mínimas sementes
onde é germinado: em trabalhos escolares, transposições
para o teatro e o cinema, saraus literários, performances poéticas,
concursos de sonetos, tema de redações, enfim, difícil
mensurar, difícil encontrar quem não se pegue cantando de cor
ao menos um verso do Poetinha. Como diz o poeta Ferreira Gullar:Vinícius
ensinou o povo brasileiro a ser feliz. Devemos esta magia ao Poeta.
A última companheira, a morte, confirmou Vinícius como o Poeta
ao qual almejou sempre: popular, querido e cantado pelo povo, mesmo quando não
se sabe estar entoando Vininha. Afinal, quem não já usou pelo
menos um verso de Vinícius no seu dia-a-dia ? - "E por falar em
saudade, onde anda você ?", "Se todos fossem iguais a você...",
"As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental", "Chega
de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não
há beleza...", "Que não seja imortal posto que é
chama mas que seja infinito enquanto dure".
Pois é, meu querido São Vininha: Você caminha comigo
aonde quer que eu vá e me leva sempre a repetir os mesmos versos por
você dedicados a Garcia Lorca: "Poeta, não precisavas da morte
para nada".
Quando bate a saudade bem grande de você, como agora, neste outubro
dos seus 95, só resta ouvir suas músicas, ler seus livros e olhar
o céu. Você por certo se esconde em alguma estrela de onde sussurra
versos para a Lua, a linda mulher tão cheia de pudor que vive nua.