A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A Preguiçosa Poética de Barreirinhas

(Aurora Miranda Leão)

Quem não tem amor no mundo, não vem neste lugar... (Herbert Vianna)

O piloto avisa: "do lado direito, vocês podem observar os Lençóis maranhenses"... Imediatamente, quem está na outra ponta ou não está em janela, levanta-se e tenta achar um jeitinho de olhar a tão decantada beleza natural do mundo. E quando a aterrissagem acontece em São Luís, a reação é uma só: Aplausos !

Desta vez, estávamos aplaudindo eu e os queridos Bernadete Duarte (exemplo de amiga e dignidade) e Jorge Salomão, o grande nome contemporâneo da poesia baiana. Na bagagem, muito material pra garantir um bom registro: câmaras fotográficas e filmadoras, roupas de banho, chapéus e protetor solar. A aventura estava energizada no coração.

A van toca pra Barreirinhas, passamos por Pedrinhas, Bacabeiras, Rosário, paramos em Morros prum lanche básico, e tocamos pro portal que leva aos Lençóis. Agendados com a segunda edição do Curta Lençóis, festival de cinema e vídeo idealizado ano passado pelo festejado Euclides Moreira Neto, e este ano tocado pelo músico e professor Alberto Dantas, agora titular do Departamento de Arte e Cultura da UFMA (Euclides assumiu, merecidamente, a direção da Fundação Cultural de São Luís).

Barreirinhas é ainda uma pacata cidade do interior nordestino, litoral do estado do Maranhão, distante cerca de 250 quilômetros da capital, com pouco mais de 40 mil habitantes, encharcados de atenção e carinho com os visitantes. É lá onde habita o enorme e belo rio Preguiças, cortando a cidade de ponta a ponta, cartão postal da praça principal e por onde navegam barcos, balsas, "voadeiras" e nativos sem medo de aventuras eco-fluviais.

Para este segundo Curta Lençóis, (oportunidade pra reencontrar o radialista Joel Jacintho, o The Best), consegui "cooptar" minha amiga Bernadete, colocando-a em cenário que há tanto sonhava conhecer, e levei também meu parceiro de farras textuais e banhos de sol e piscina, Jorge Salomão. Eu, ele e mais os cineastas Murilo Santos e João Paulo Furtado formamos a comissão julgadora do festival. Eu e Berna ficamos no Resort Lençóis Maranhenses, convite ao descanso, enquanto Salomão aportou na Pousada Murici. Depois encontramos outros companheiros de cinema, abrigados em outros hotéis e pousadas, como Roberto Werneck e Tadeo Saldanha (ambos integrados em filmagens para a série Expedições, que Roberto e Paula Saldanha apresentam na Tv Brasil).

Malas ancoradas, partimos pra noite de abertura, telão armado na praça do Trabalhador e uma projeção supimpa, sob os auspícios do bam-bam-bam do ofício, maestro Gutérres, querido. A praça é circundada por árvores, centro de artesanato, sorveteria, pizzaria, lan house e uma brisa muito gostosa acompanha o clima de tranqüilidade que permeia toda a cidade.

Outra surpresa feliz: encontrar o restaurante Barlavento, comida caseira da melhor qualidade, atendentes simpáticas e prestativas, um privilégio onde se saboreia uma gostosa comida com os olhos colados no rio que sempre passa humilde ante aos olhos admirados de quem aprendeu a respeitar a natureza.

Aproximar-se do rio Preguiças é o inicio de um encantamento sem fim com Barreirinhas, o cartão de visitas dos deslumbrantes lençóis maranhenses. A cidade tem um prefeito recém-empossado e precisa de alguns reparos urgentes. Tirando este senão, tudo em Barreirinhas é agradável. Ali, qualquer take é uma imagem especial. Pegar uma voadeira é convidar a magia pra sentar ao seu lado e juntas viajarem para celebrar um dos mais belos cenários, cujo autor é o anônimo de quem mais falamos todos nós. Tomando o Preguiças, há um mundo a descortinar, como se fora o caminho pontuado pela sonoridade de Herbert Vianna - Os barcos são a alegria deste lugar/ toda tarde tem festa quando chegam do mar/ os velhos numa mesa são como uma visão/ bebendo a tarde inteira, cantando uma canção...

Uma parada na Pousada dos Macacos (onde estes e diversos pássaros recebem você como mais um amigo da natureza), uma passadinha em Mandacuru (onde a criançada recebe saudando à árvore que quando fulora na seca anuncia a chuva no sertão). Nesse trajeto, vale uma ida ao Caburé: além da visão (onde filmei ano passado o encontro de dois arco-íris) deslumbrante, vale experimentar a deliciosa culinária à base de peixe, camarão e lagosta, e do outro lado ainda pode-se mergulhar numa deliciosa lagoa dos Lençóis. De lá, quem consegue sair, vai até Atins (lugar onde naufragou séculos passados o barco do poeta Gonçalves Dias), onde o rio encontra o mar... Tudo isso Bernadete viu, se encantou, chorou e suas lentes registraram (com ajuda do câmera-man Lívio) para a programação do Canal Brasil (leia-se CineJornal).

Como beleza pouca é covardia, dia seguinte Berna ainda quis captar os Lençóis sobrevoando pra confirmar a grandeza da Criação, registrando o paraíso ancorado em solo nordestino, enquanto eu aguardava no mini-aeroporto a chegada da destemida jornalista. A alegria subiu e desceu quase lacrimejando nos olhos faiscantes da amiga, qual criança ganhando o presente acalentado há anos em olhares diáfanos pela vitrine.

Almoço feito, mochilas nas costas carregadas de água e muito protetor solar, pegamos o caminhãozinho adaptado ("pau-de-arara") para finalmente deixar o coração anunciar a emoção de pisar as areias desérticas dos Lençóis. Uma balsa antes, um suco ou iogurte pra revigorar, um rio de águas então bem fartas mas uma travessia muito tranqüila e lá vamos nós pelo quase "rally" de muita terra seca e solta. Haja habilidade do motorista. O nosso era o Toninho, craque ao volante, conhecedor de trilhas e atalhos menos acidentados. Depois de muito sobe-desce, gritarias de alegria e susto pelos sobressaltos do veículo a cada lombada natural encontrada por entre buritis, cajueiros e muricis, finalmente abandonamos sandálias e chinelos: estamos há dois passos do paraíso.

Subimos a cinematográfica duna branca, entre muitos outros turistas também ávidos por conhecer a natural poesia maranhense ao alcance dos olhos, das mãos e do corpo inteiro, e bastam alguns passos para começarmos a enxergar as águas cristalinas entre dunas de brancura santificada, que parecem olhar o céu em eterno enamoramento com as nuvens igualmente alvas e encantatórias.

Filmamos, fotografamos, nos abraçamos efusivamente e caímos n'água: os peixinhos que certificam a ausência de poluição, também testemunharam nossa contingente adesão com esta Oitava Maravilha do Mundo, tão mais bela quanto mais cortejada, tão mais festejada quanto mais se chega perto, tão mais intraduzível quanto mais caminhamos e o cenário magnífico se descortina como quem anuncia que tudo ali está a seu alcance, dádiva divina: pra se apaixonar, basta conhecer.

SARAVÁ, LENÇÓISSSSSSSSSS !!!
Viva Barreirinhas !

E voltamos já delineando em nosso sonhário a volta para a terceira edição do festival. Pra nossa surpresa, o ambientalista Washington Rio Branco, secretário de governo, anuncia à noite, defronte ao telão, a intenção de Roseana Sarney em tornar o Curta Lençóis um festival de alcance internacional.

Ficamos daqui torcendo, e já dispostos a colaborar no que for preciso, porque internacional o cenário já é, basta ressaltá-lo junto à enorme comunidade audiovisual mundial. E pra isso, Barreirinhas e o Maranhão já têm a beleza e a hospitalidade na mão.

E falar em hospitalidade, não há como esquecer a generosa Agar e seu Zequinha, adoráveis proprietários da Pousada Murici, onde o aconchego faz morada por entre enormes mangueiras, muricis, ciriguelas e cajueiros. Na Murici, cujo muro tem a cor da aprazível frutinha boa de suco e de sorvete, um adorável banho de piscina, feijoada com torresmo e café da manhã olhando pro rio. Quem pode não contaminar o sobrenome com a alcunha do Preguiças ante convite tão sensorial ao desfrute ? Erguemos uma taça ao vento e saímos a abraçar um cochilo em meio a tanta calmaria para logo mais sermos detidos admirando o pôr-do-sol por entre buritizais frondosos, agradecendo a Deus por tanta beleza e convivência harmoniosa de brisa, gente, passarinhos e boa companhia...

A Pousada Murici é como um abrigo discreto e permanente onde a Paz fez morada, onde a tristeza não tem campo pra florescer, a depressão nem ousa bater à porta e a vontade de ficar é o slogan que cada visitante parece carregar estampado nos olhos e no coração.

Um abraço muito carinhoso ao casal Agar & Zequinha com minha gratidão pela acolhida tão carinhosa a mim e aos amigos do Curta Lençóis. Um beijo especial a Jorge Salomão e a Bernadete Duarte, com os agradecimentos a Carlinhos Wanderley, Daniela Cantagalli e a Maristela Pereira pela cessão da aguerrida repórter Bernadete Duarte e um abraço muito caloroso a toda a equipe que tornou possível mais um Curta Lençóis, sob a coordenação do professor Alberto Dantas. Saravá!

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