Voltar a Goiânia é sempre uma satisfação.
Cidade com jeito de grande mas cercada pelo encanto dos canteiros floridos que
lhe dão um charme de pacata, lá o clima ademais é de hospitalidade
e instantâneas sintonias.
Conheci a capital goiana na primeira edição de seu festival de
cinema, atendendo a generoso convite daquela que logo se tornou minha amiga
de muitos carnavais: Débora Torres. Àquela época,
escrevi afirmando: "O FestCine Goiânia começa com cara
de festival que já tem uma década".
Voltando este ano para sua sexta edição, constato com alegria
o quanto estava certa minha afirmação. O FestCine Goiânia,
fruto da vontade, determinação e criatividade de Débora
Torres (ancorada pela força do apoio substancial do escritor Miguel Jorge),
é hoje um dos mais bem realizados festivais de cinema dentre tantos quanto
acontecem em todas as regiões do país. Por isso, é sempre
tão bom dele participar. Num município que trata o Cinema com
o devido respeito, nós, amantes da Sétima Arte e partícipes
de seu labor cotidianamente, só podemos ficar muito contentes em ali
poder sempre voltar e aferir os muitos acertos de um festival que nasceu pleno
de fôlego, temperado pela competência e amplificado por esforços
para torná-lo ainda mais relevante no cenário cultural.
Este ano, além de integrar a comissão julgadora, o Festival Nacional
de Cinema de Goiânia também promoveu o lançamento de mais
um livro de meu pai, o crítico LG de Miranda Leão - Ensaios
de Cinema (fruto do edital Cultura da Gente, do Banco do Nordeste do
Brasil), cujos textos foram por mim selecionados e revisados. Tenho a honra
de ter no prefácio da obra as judiciosas palavras de Rubens Ewald
Filho, mais um amigo que o FestCine me proporcionou.
Sobretudo este ano, na capital goiana, tive a benfazeja alegria de reencontrar
Rubens, um gentleman nas ações e um Mestre no fascínio
de traduzir o Cinema em precisas lições de vida.
Com fôlego invejável, Rubens Ewald Filho abriu uma fenda
em sua extensa/intensa agenda para realizar duas palestras no festival, promovidas
pela Secretaria de Educação do Município para professores
da rede pública de ensino. Não é todo dia que se pode ouvir
sobre Cinema com alguém do naipe de Rubens nesse métier. Assim,
abraçamos com indisfarçável contentamento a chance de estar
na platéia, ao lado da querida Rosamaria Murtinho, do ator e roteirista
Alex Moletta, e do cineasta Julinho Léllis. Àquela palestra e
a da manhã do dia seguinte nos ficarão para sempre na memória,
duas aulas impressionantes de conhecimento sobre a Sétima Arte e seus
bastidores, o porquê de determinadas escolhas em tantas fases marcantes,
as implicações do cinema na moda e da moda no cinema, grandes
marcos e alguns embustes, mitos criados e tantos perpetuados, os nomes que sucumbiram
depois de grandes êxitos, as mudanças aceleradas pela chegada das
novas tecnologias, o permanente e o provisório nesta Arte tão
fascinante quanto intrigante, insólita, desafiadora: a Arte de usar de
todos os artifícios para tornar mais bela, conseqüente e justificada
a passagem do humano pelo planeta.
E é de contagiante simplicidade, espontânea vocação
e indisfarçáveis doses de boa vontade a generosa forma com a qual
Rubens Ewald Filho fala de Cinema como quem conversa com o caseiro da
chácara onde viveu a infância e perpetuou a criança extasiada
ante ao fascínio da Arte de reproduzir a vida através de imagens
em 24 quadros por segundo, às vezes mais, outras menos, mas sempre com
o mesmo gosto pela vida amplificada em beleza, magnitude e condões do
Mistério.
Integrando a comissão julgadora, cuja presidência coube a Rosamaria
Murtinho, estávamos eu, a bela Ingra Liberato, Alex Moletta e Rogério
Santana, professor de Literatura Brasileira e Portuguesa da UFG, assistidos
de perto pelo olhar sensível e a afetividade acolhedora de Miguel Jorge.
Os dias compartilhados ao lado deles foram de muitas idéias, trocadas
ante à preferência por um ou outro filme, estimulada sintonia e
afetividade que logo se estabeleceu e o tempo fez reverberar em saudade e até
no alvitre de um curta-metragem, gravado ali mesmo, naqueles dias que tão
rápido se escorreram por entre nossos dedos, cuja edição
agora nos cabe levar adiante, com prazer e sensação de recuerdo
de um tempo muito feliz e bem partilhadas horas de convívio e debates
cinéfilos.
Tínhamos uma lista de altíssima qualidade fílmica para
ver e avaliar, tarefa tão difícil quanto estimulante. Filmes do
quilate de Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo (Karim A6Inouz
e Marcelo Gomes), Bróder (Jeferson De), e Olhos Azuis
(José Joffilly), bem como os curtas Diga 33, Rupestre, O Centésimo
(Daw), enriqueceram nossas discussões e nos fizeram varar a madrugada
na véspera da noite de encerramento em busca de um resultado que se fizesse
justo e correspondente à qualidade exibida para uma platéia que
todas as noites lotou o CineTeatro Municipal Goiânia Ouro para fazer jus
ao emblemático Troféu Goiânia, criação do
artista Siron Franco (!!!).
Difícil sim julgar - todos os concorrentes tinham/têm inegáveis
qualidades. Daí, é preciso enxergar com a sensibilidade e sentir
com a consciência de que precisamos não só reafirmar o Ótimo,
consagrar valores e referendar trajetórias, mas sobretudo apontar caminhos
e possibilitar o acender de faróis em direções ainda não
vistas, em trilhas ainda não percorridas. A lista dos premiados está
colocada no final deste texto.
Após a concorrida solenidade de premiação - onde tivemos
a oportunidade de assistir a dois exemplares do cinema goiano: Quadro
Negro, novo curta de Débora Torres (vídeo educativo sobre
a questão das drogas, onde pontificam as atuações de Milton
Gonçalves, Neusa Borges e Ingra Liberato), e um documentário
de João Batista de Andrade sobre vida e obra de Miguel Jorge,
quando a atuação do escritor nas lides literárias goianas,
suas amizades e seus escaninhos culturais nos chegam de modo artístico
e delicado, tornando Miguel pessoa ainda mais grata no convívio de todo
dia) -, um farto coquetel presenteava o público, realizadores, jurados,
cinéfilos e cinemeiros de todos os matizes num bem pensado espaço
do próprio CineTeatro Goiânia Ouro, onde o cinema tem livre trânsito
para se expandir em variadas direções.
Lá estavam os cineastas Carol Paraguaçu Dayer, Orlando Lemos,
Ângelo Lima, Paulo Miranda, Sílvio Tendler e sua filha Ana,
Henrique Dantas, Júlio Léllis, o querido ator Guido Campos,
a maravilhosa turma da produção, comandada por Itamar Borges:
Jane, Bia Del Arco, Mariley Carneiro, Fabrícia Hamu... e por certo muito
mais gente que a memória agora me trai e me faz escapar do caderninho.
De lá, seguimos para uma festa, cujo piloto conheci logo nos primeiros
dias de FestCine e me prometeu uma noite repleta de Paralamas (!!!) e música
brasileira da melhor qualidade (Jorge Bem Jor, Tim Maia, Luís Melodia,
Lulu Santos, Djavan) e, portanto, de muita alegria e suingue por todos os poros.
Débora Torres, a super anfitriã, conduzia uma garrafa de vinho,
ladeada pela não menos amiga Ingra Liberato, pródiga na vontade
de acolher mais alegria pra enfeitar a pista. E assim transcorreu nossa noite/madrugada,
ao lado dos muitos parceiros de estrada que ali se consagraram amigos e hoje
nos fazem ansiar, entre saudades e afetos, por novas celebrações
goianas, na capital que, todos os inícios de novembro se transforma em
Capital do Cinema Brasileiro.
SARAVÁAAAAAAAAAAAAAAAAA !!!