A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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PSICÓLOGOS

(Carlos Henrique Böhm)

Chega na hora de se inscrever para o vestibular e começam os problemas quanto à escolha. Alguns nem pensam em faculdade, como um amigo que quer seguir a área das exatas, vai montar uma banda de roque. Esses podem ser os alunos do fundão que nunca estudam e às vezes acabam muito ricos, e os da primeira fila, podem se tornar algum funcionariozinho público qualquer e ganhar uma miséria. Que incentivo dão ao estudo!

Há pouco tempo descobri que grandes traficantes fazem qualquer curso superior só para terem privilégios num possível julgamento. É uma maneira inteligente de planejar a carreira.

Besteira de lado, vem mostrando-se um grave problema a decisão da profissão a seguir, cada vez se entra mais cedo na faculdade, e parece que mais imaturos estão ficando os jovens. Não que indecisão seja imaturidade, é que decidir demonstra necessidade de maturidade, o que nem sempre existe. Uma ajuda.

- E então, já decidiste para que vais prestar vestibular?

- Já, mas foi difícil escolher, sempre ficava na dúvida, acabei procurando ajuda.

- Ah, foi fazer um trabalho... Entendo, é bom. Foste no Pai Suzé? É o melhor aqui na cidade.

- Não, nada disso. Para que eu faria uma coisa dessas?

- Ora, para que, para iluminar o teu caminho, abrir o coração, a alma. Rapaz, tu nem sabes como é excelente. Sem contar também que ajuda nos problemas de saúde. Quando fico atacada das hemorróidas, não dá outra. Há trinta anos que médico nenhum me cura. Com o Pai Suzé é tiro e queda.

- Como funciona?

- Outra hora te conto, se não tens, é melhor nem ficar sabendo.

- Tudo bem...

- Mas que tipo de ajuda foste procurar?

- Orientação profissional.

- Não me diga? - estarreceu-se ela.

- Sim... Por que o espanto?

- É com psicólogo, né?

- Sim...

- Meu jovem, que cag...! Esse tipo de gente não vale nada! São todos uns problemáticos, levam os problemas para casa, se acham sempre os donos da verdade...

- Não, cometes um grande equívoco.

- Quem é assim então?

- Qualquer um pode ser, independe da profissão, está dentro de cada um. É próprio da personalidade. Tem que olhar para dentro.

- Olha aí, contaminou-se. Estás falando igual a eles.

- São profissionais, treinados para promover a saúde mental. Não deverias difamá-los assim.

- Uma ova! Garanto que saem a fofocar os problemas da fulana para a sicrana, que por sua vez conta a beltrana. Que estirpe abjeta!

- Que exagero, são gente boa, me ajudou bastante.

- Continuo cá com as minhas idéias. Veja só: ganham um horror de dinheiro para ficar botando conserva fora e saber da vida de todo mundo.

- Espere, é um trabalho ético... Já consultaste um para saber?

- Infelizmente, porque estava louca. Se estivesse sã não teria feito essa bobagem.

- Parece meio paradoxal, pois se vai ao psicólogo quando se tem loucura, ou algo não tão grave, como simples neuroses.

- Continuas falando como eles.

- E como foi?

- Não gostei, prefiro o Pai Suzé, acho que vou te levar lá, ele vai te endireitar.

- Sem chance.

- Não... Mas eu ainda te convenço... E afinal, aquela porcaria adiantou? O que decidiste fazer?

- Psicologia.

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