Churrasco de domingo em família, o vô assa a carne, a vó faz a maionese, a cunhada encalhada arruma a mesa e comenta da vida da fulana, da cicrana, da beltrana, enfim, de todas as anas. Todos felizes, exceto pela recente separação da filha e pela maneira dantesca como as crianças da tia Zulmira destruíam as coisas. Primeiro foi a calçola da vó no varal, depois com a bola foi a lataria do Volks do vô. E por aí vai.
Repentinamente Suzana, a filha separada chega como de costume só na hora do almoço, mas desta vez com o Sérgio, seu ex-marido. Todos ficam boquiabertos. O casal está sorrindo e de mãos dadas. Até as crianças param a destruição, sobressaltados.
O pai começa a olhar desconfiado para o genro. Genro?
Dão um bom dia insólito. Os outros não fazem descaso, mas continuam desconfiados. A mãe puxa a filha para um canto.
- Mas como, vocês não estavam separados?
- Sim.
- Mas então?
- Voltamos.
- Assim, sem avisar?
- Viemos avisar. Tem comida?
Cria-se um clima tenso.
Quando a mãe traz a ambrosia depois do almoço todos já estão descontraídos. Diz o pai depois de um arroto:
- Que bom que vocês voltaram, eu sempre gostei de ti, rapaz - e dá um tapa nas costas do genro.
- "Ele ainda bate forte" - pensa Sérgio.
Sérgio teve que jogar truco a tarde toda com o sogro e seu irmão surdo, o tio Alípio.
Quando o casal estava indo embora, a mãe chama a filha para um particular, e o pai o genro:
- Se cuidem, rapaz, se cuidem...
- Agora está tudo bem.
- Que bom, eu disse para esperarem para ir procurar um advogado, sabia que vocês iam se entender.
- É, está tudo bem - completa o genro atencioso já enjoado de escutar tanta coisa chata em um tão curto período de tempo - "vou ter que voltar a me acostumar" - pensou desanimado.
- Como é que vocês não nos avisam que estão juntos novamente?
- Viemos aqui pra isso.
- Que bom... Vocês nunca muito foram de contar as coisas para nós.
- A Suzana que quer assim.
É por causa do Sérgio, mãe - explica Suzana.
- Quando vocês noivaram, não nos contaram.
- Eu nem conhecia vocês.
- Não nos contaram onde fizeram a lua-de-mel.
- Nós nem fizemos!
- Viste? Isso eu também não sabia.
- Eu também não sabia que não ia ter lua-de-mel.
- A igreja que vocês se casaram nós ainda nem sabemos.
- Bem, não fui eu quem organizou. Sabe, essas coisas são departamento das mulheres.
- Nem da gravidez.
- Para os meus pais eu contei, a Suzana que não quis contar para vocês.
- O que? Você está grávida?
- A senhora ainda não sabia, mãe?
- Também quando vocês se separaram demorou para a nós ficarmos tendo conhecimento...
- Como eu ia contar, se nós paramos de se ver?
- Bem, o que importa é que agora vocês estão juntos.
- Claro, claro...
- Suzana, como é o nome dele, Sérgio?!!!
- Se cuidem nessa reconciliação, rapaz, seis meses de casados para já estarem se separando é pouco tempo...
- Bem, na verdade aos seis meses foi a segunda separação.