A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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TEMPO BOM

(Carlos Henrique Böhm)

Laerte, pai de Joãzinho vai buscar o filho no colégio. Claudir, pai de Pedrinho também. Joãozinho e Pedrinho estudam na primeira série e têm seis anos. Seus pais 40. Laerte vinha pela calçada, da direita em direção ao colégio, Claudir da esquerda. Quando estavam uns vinte metros distantes começam a observar um o rosto do outro. A dez, sorriem. No encontro gritam:

- O quê?! Tu por aqui?

- Não me diga que tu és o...

- Claudir.

- O que?! Claudir, tu por aqui?

- ãhã. E tu?

- Também.

- Não, quem tu és, cara?

- O Laerte.

- O quê?! O Laerte?

- Sim.

- Meu Deus... O tempo passa... A gente estudou junto, se lembra?

- Tô me lembrando...

- E olha agora como tu estás, cara!

- Tô bem, ora.

- Tua idade...

- A mesma que a tua, a gente estudou junto. Quanto tempo...

- E o que andas fazendo, Laerte?

- Por aí, né, batalhando... Vim pegar o meu piá no colégio.

- O quê?! Tu já tens filho?

- Pois é... O tempo passa. Casei com a Suzarete.

- Não me diga? Estudou com agente também, né?

- Sim.

- Mas o tempo passa, né cara? Olha só, tu já com filho...

- E tu, rapaz, como é que andas?

- Bem. Também vim pegar o meu guri, o Pedrinho, tem que ver o tamanho que tá, tem seis anos.

- O meu também. Deve ter saído a tua cara...

- O meu ou o teu?

- O teu, né! Tu também eras bem grande quando pequeno, eu me lembro. Ô tempo bom aquele...

- Tu se lembras daquela vez que a gente brigou por causa de um jogo de bolita...

- Lembro. Depois eu te derrubei da bicicleta só pra me vingar. A gente brigava também porque um sempre dizia que era mais rica que o outro.

- "Minha mãe comprou não sei o que" . "O meu pai tem isso". "O teu não tem".... Era bom... A gente ia no colégio, estudava, era um saco. Uma hora da tarde um já tava na casa do outro. Brincava, brigava e ia pra casa...

- E à tardinha um ia na casa do outro com uma cara de cachorro perdido: "Vamo brincá?"

- Daí era jogar bola até dez ou onze da noite.

No outro dia acordava moído de cansaço e começava tudo de novo.

- Ô, tempo bom...

- E quando uma mãe não deixava um posar na casa do outro. Tu se lembra, rapaz?

- Claro... Era uma choradeira. E sempre os dois apanhavam.

- E se elas deixassem, a gente apanhava igual por causa da folia.

- Era chato quando não deixavam o cara fazer alguma coisa, ou ficar de castigo. Vejo pelo meu piá, apronta de apá e sofre também... Os pais meio se irritam!

- Nunca estão satisfeitos, sempre ficam azucrinando os ouvidos pra ir não sei aonde, porque não sei o quê...

- A gente também era assim. Bá.... Que saudade!

- Nem me fala...

- Era bucha obedecer os velhos, né?

- Meu Deus! Os meus eram uns xaropes.

- Pras crianças todos são.

- Mas que bom que era!

- O cara nunca tava contente.

- É mesmo... Dificilmente...

- Só quando aprontava alguma...

- Depois dava aquela sensação de arrependimento...

- Parecia que era vontade de mijar, né?

- É, mas o cara mijava e continuava aquilo...

- E os cagaços que tomava dos teus primos, se lembra?

- Lembro... Depois a gente cresceu e continuou tomando cagaço.

- Geralmente se desconta nos mais novos.

- Mas os meus primos também cresciam. Dãããã!

- Se lembra que quando tu falava isso aí? A tua mãe te dava um tapa na boca.

- Falava o que?

- Dãããã!

- Lembrei!

- Dãããã! - falaram os dois juntos, arrotando.

- Cara, tu se lembrou do nosso cumprimento!

- Que legal!

- A gente sempre apanhava quando fazia isso, era morotisse...

Joãozinho e Pedrinho estavam sendo levados aos pais pela professora, que o s puxava pelas orelhas, tinham brigado novamente.

- Ó, o meu já tá vindo. Deve ter brigado de novo com aquele piá de merda. Eu ainda descubro quem é puto do pai dele.

- Sou eu

- Capaz?

- Mas aquele teu piá é baita dum merda!

- O teu que é!

- Mas credo!

E começam a brigar. Ô, tempo bom...

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