Laerte, pai de Joãzinho vai buscar o filho no colégio. Claudir, pai de Pedrinho também. Joãozinho e Pedrinho estudam na primeira série e têm seis anos. Seus pais 40. Laerte vinha pela calçada, da direita em direção ao colégio, Claudir da esquerda. Quando estavam uns vinte metros distantes começam a observar um o rosto do outro. A dez, sorriem. No encontro gritam:
- O quê?! Tu por aqui?
- Não me diga que tu és o...
- Claudir.
- O que?! Claudir, tu por aqui?
- ãhã. E tu?
- Também.
- Não, quem tu és, cara?
- O Laerte.
- O quê?! O Laerte?
- Sim.
- Meu Deus... O tempo passa... A gente estudou junto, se lembra?
- Tô me lembrando...
- E olha agora como tu estás, cara!
- Tô bem, ora.
- Tua idade...
- A mesma que a tua, a gente estudou junto. Quanto tempo...
- E o que andas fazendo, Laerte?
- Por aí, né, batalhando... Vim pegar o meu piá no colégio.
- O quê?! Tu já tens filho?
- Pois é... O tempo passa. Casei com a Suzarete.
- Não me diga? Estudou com agente também, né?
- Sim.
- Mas o tempo passa, né cara? Olha só, tu já com filho...
- E tu, rapaz, como é que andas?
- Bem. Também vim pegar o meu guri, o Pedrinho, tem que ver o tamanho que tá, tem seis anos.
- O meu também. Deve ter saído a tua cara...
- O meu ou o teu?
- O teu, né! Tu também eras bem grande quando pequeno, eu me lembro. Ô tempo bom aquele...
- Tu se lembras daquela vez que a gente brigou por causa de um jogo de bolita...
- Lembro. Depois eu te derrubei da bicicleta só pra me vingar. A gente brigava também porque um sempre dizia que era mais rica que o outro.
- "Minha mãe comprou não sei o que" . "O meu pai tem isso". "O teu não tem".... Era bom... A gente ia no colégio, estudava, era um saco. Uma hora da tarde um já tava na casa do outro. Brincava, brigava e ia pra casa...
- E à tardinha um ia na casa do outro com uma cara de cachorro perdido: "Vamo brincá?"
- Daí era jogar bola até dez ou onze da noite.
No outro dia acordava moído de cansaço e começava tudo de novo.
- Ô, tempo bom...
- E quando uma mãe não deixava um posar na casa do outro. Tu se lembra, rapaz?
- Claro... Era uma choradeira. E sempre os dois apanhavam.
- E se elas deixassem, a gente apanhava igual por causa da folia.
- Era chato quando não deixavam o cara fazer alguma coisa, ou ficar de castigo. Vejo pelo meu piá, apronta de apá e sofre também... Os pais meio se irritam!
- Nunca estão satisfeitos, sempre ficam azucrinando os ouvidos pra ir não sei aonde, porque não sei o quê...
- A gente também era assim. Bá.... Que saudade!
- Nem me fala...
- Era bucha obedecer os velhos, né?
- Meu Deus! Os meus eram uns xaropes.
- Pras crianças todos são.
- Mas que bom que era!
- O cara nunca tava contente.
- É mesmo... Dificilmente...
- Só quando aprontava alguma...
- Depois dava aquela sensação de arrependimento...
- Parecia que era vontade de mijar, né?
- É, mas o cara mijava e continuava aquilo...
- E os cagaços que tomava dos teus primos, se lembra?
- Lembro... Depois a gente cresceu e continuou tomando cagaço.
- Geralmente se desconta nos mais novos.
- Mas os meus primos também cresciam. Dãããã!
- Se lembra que quando tu falava isso aí? A tua mãe te dava um tapa na boca.
- Falava o que?
- Dãããã!
- Lembrei!
- Dãããã! - falaram os dois juntos, arrotando.
- Cara, tu se lembrou do nosso cumprimento!
- Que legal!
- A gente sempre apanhava quando fazia isso, era morotisse...
Joãozinho e Pedrinho estavam sendo levados aos pais pela professora, que o s puxava pelas orelhas, tinham brigado novamente.
- Ó, o meu já tá vindo. Deve ter brigado de novo com aquele piá de merda. Eu ainda descubro quem é puto do pai dele.
- Sou eu
- Capaz?
- Mas aquele teu piá é baita dum merda!
- O teu que é!
- Mas credo!
E começam a brigar. Ô, tempo bom...