Ivan dirigia pela BR, escutava o mais novo CD do Molejo.
"Brincadeira de criança
Como é bom, como é bom
Traz amor e esperança
Como é bom, como é bom
O bom é ser feliz com o Molejão"
Parou no pedágio e baixou o som.
- Boa noite.
- Bom dia, senhor, são três reais.
- Como?
- Três reais, senhor. A partir de hoje são três reais.
- Não, digo como assim "bom dia"?
- É uma hora da manhã.
- Mas está escuro.
- O dia começa à meia noite. Tivesse chegado uma hora antes, seria dois e cinqüenta, agora são três.
- Pára de me xaropear com dinheiro. Ó, toma aí os teus três pila. Estou falando da noite.
- Que noite? Agora é dia.
- Noite.
- Dia.
- Tá bom, olha o dia lindo que nasce, à uma hora da manhã.
- Está escuro mas é dia, senhor. E por favor, senhor, a fileira de carro atrás já está grande, causando transtorno.
- O que me importa esses cornos aí atrás?
- Eles têm o direito de passar.
- E daí?... Mas é dia. Até vou pegar o meu raiban, o sol está muito forte.
Ele pega o raiban, o famoso. O Raiban do Ivan.
- Faltaram cinqüenta centavos, senhor.
É que com esse sol na cara não consegui contar direito. Agora com o raiban fica melhor.
Começa a procurar uma moeda na carteira, não acha. Na porta do carro também não. Os carros começam a buzinar.
- Por favor, senhor, poderia demorar menos?
- Não, xarope. Não vê que estou procurando?
- Na verdade não sou xarope.
- Não de litro.
- Na verdade me chamo Egonzir Gosmerindo Silva.
- Xarope é melhor.
- De repente...
- Seria melhor os teus pais de chamarem de João Silva.
- João Silva não. Seria melhor Repolho, Tomate, Alface... Esses não têm tanto.
Dois dos vários motoristas de trás descem dos seus carros.
- Pssss... A coisa vai engrossar.
- Pra ti.
- Menina, olha pra bucha que tu me meteste! - revolta-se Egonzir Gosmerindo colocando as mãos na cintura.
Os motoristas chegam no carinho:
- Não dá pra apurar aí, tchê? - e dá um chute no pneu, fazendo o carro mover-se um pouquinho.
- Sai daí, filho da...
A mãe citada não deixa por menos, sai do carro, um chevete, que levantou uns trinta centímetros quando ela saiu, levando seus trezentos quilos e uma inédita papada quádrupla.
Que sorte, antes de ela chegar até o carro do Ivan, o que poderia levar anos, ele achou a maldita moeda. Pagou e ao receber o tíquete:
- Tchau, Xarope - levanta o som.
"Acorda, criançada
Tá na hora da gente brincar...
Oba!..."
- Tchau, e tenha um bom dia.