A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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BOM DIA

(Carlos Henrique Böhm)

Ivan dirigia pela BR, escutava o mais novo CD do Molejo.

"Brincadeira de criança
Como é bom, como é bom
Traz amor e esperança
Como é bom, como é bom
O bom é ser feliz com o Molejão"

Parou no pedágio e baixou o som.

- Boa noite.

- Bom dia, senhor, são três reais.

- Como?

- Três reais, senhor. A partir de hoje são três reais.

- Não, digo como assim "bom dia"?

- É uma hora da manhã.

- Mas está escuro.

- O dia começa à meia noite. Tivesse chegado uma hora antes, seria dois e cinqüenta, agora são três.

- Pára de me xaropear com dinheiro. Ó, toma aí os teus três pila. Estou falando da noite.

- Que noite? Agora é dia.

- Noite.

- Dia.

- Tá bom, olha o dia lindo que nasce, à uma hora da manhã.

- Está escuro mas é dia, senhor. E por favor, senhor, a fileira de carro atrás já está grande, causando transtorno.

- O que me importa esses cornos aí atrás?

- Eles têm o direito de passar.

- E daí?... Mas é dia. Até vou pegar o meu raiban, o sol está muito forte.

Ele pega o raiban, o famoso. O Raiban do Ivan.

- Faltaram cinqüenta centavos, senhor.

É que com esse sol na cara não consegui contar direito. Agora com o raiban fica melhor.

Começa a procurar uma moeda na carteira, não acha. Na porta do carro também não. Os carros começam a buzinar.

- Por favor, senhor, poderia demorar menos?

- Não, xarope. Não vê que estou procurando?

- Na verdade não sou xarope.

- Não de litro.

- Na verdade me chamo Egonzir Gosmerindo Silva.

- Xarope é melhor.

- De repente...

- Seria melhor os teus pais de chamarem de João Silva.

- João Silva não. Seria melhor Repolho, Tomate, Alface... Esses não têm tanto.

Dois dos vários motoristas de trás descem dos seus carros.

- Pssss... A coisa vai engrossar.

- Pra ti.

- Menina, olha pra bucha que tu me meteste! - revolta-se Egonzir Gosmerindo colocando as mãos na cintura.

Os motoristas chegam no carinho:

- Não dá pra apurar aí, tchê? - e dá um chute no pneu, fazendo o carro mover-se um pouquinho.

- Sai daí, filho da...

A mãe citada não deixa por menos, sai do carro, um chevete, que levantou uns trinta centímetros quando ela saiu, levando seus trezentos quilos e uma inédita papada quádrupla.

Que sorte, antes de ela chegar até o carro do Ivan, o que poderia levar anos, ele achou a maldita moeda. Pagou e ao receber o tíquete:

- Tchau, Xarope - levanta o som.

"Acorda, criançada
Tá na hora da gente brincar...
Oba!..."

- Tchau, e tenha um bom dia.

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