A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Eric Burdon e o Engenheiro

(Eugênia Ventura)

Ela tinha 40 anos e aparentava 30. Dizia ter 36, pois esse número lhe soava melhor.

Sabe aquela coisa, não? 40 anos pesam numa mulher e ainda mais quando isso é revelado a um homem.

O engenheiro ela conheceu na Internet num site de amizades.

Naquele tempo, século passado final da década de 90, esses sites ainda eram confiáveis e acessados por um pessoal diferenciado, culto, pois até ali os computadores e Internet ainda não tinham se popularizado e nem eram vendidos à prestação em lojas de departamento.

Um papo simpático rolou e em pouco tempo as conversas se tornaram mais frequentes e mais pessoais.

Melinda, esse era o nome dela, estava só, um casamento recém desfeito, a vida se reorganizando. O engenheiro não estava em seus planos, mas era muito bom falar com ele, ouvir suas opiniões e elogios e até mesmo flertar um pouco com a contravenção (já que ele era casado).

Depois que as intermináveis conversas "internéticas" evoluíram para telefônicas, eles resolveram se encontrar no mundo real, pois já não bastavam os suspiros e palavras à distância...

Os dois não se largavam mais e passavam as madrugadas fantasiando sobre tudo que iriam e queriam realizar.

O encontro foi marcado num motel discreto e chique.

Melinda, por via das dúvidas, avisou as amigas sobre o dia e o horário, afinal sempre havia a possibilidade de o engenheiro ser algum tipo de maníaco ou mesmo um "serial killer"...

Ela, conforme combinado, chegou antes dele. Mesmo muito aflita Melinda, estranho, tinha certeza de que iria gostar de Sílvio.

Numa batida da porta, com o coração disparado, ela abriu e o viu pela primeira vez!

Ali estava ele, alto, belo, olhos profundos e amendoados, tal como Melinda imaginava. E mágica! Uma sensação inexplicável de que já o conhecia.

Pela intensidade das horas que passaram juntos ficou claro que ele também não se decepcionara com ela.

Naquela tarde ela se descobriu mais uma vez apaixonada. A tristeza, entretanto, foi que junto com esse sentimento poderoso, surgiu a clara percepção de que se não parasse por ali ela estaria condenada a manter um caso infeliz, pois Silvio, isso também ficara muito claro, não era do tipo que largaria mulher e filhos por um romance.

Ao se despedirem Melinda, com o coração já despedaçado disse a ele que não se sentisse obrigado a nada, que tinha sido lindo, muito lindo tudo o que tinham vivido, mas melhor parar por aí.

Ao voltar para casa trouxe viva a imagem dele, seus sons, seus carinhos e algo mais forte: a estranha familiaridade que o rosto dele lhe trazia.

Melinda buscou pelos cantos da memória aqueles traços tão conhecidos e apaixonantes. Sem sucesso, entretanto.

Uma noite, das muitas insones que se seguiram depois daquela tarde, ela resolveu ouvir música.

O instinto a fez buscar na enorme discoteca uma canção do passado, emblemática e inesquecível.

Puxou então da prateleira o disco antigo, um vinil da década de 60: "Eric Burdon and the Animals"...

O choque foi instantâneo: lá está o rosto tão conhecido: Sílvio que tanto a encantara era quase um irmão gêmeo de Eric Burdon, seu ídolo e paixão de adolescente!

Só aí Melinda descobriu que já estava apaixonada por Silvio fazia muito, muito tempo.



PS. Anos depois Melinda procurou Silvio. Já estava curada da paixão.

Procurou-o meio por curiosidade, meio por carinho e apreço pelo momento mágico que tiveram... E por imensas saudades de Eric Burdon.

Silvio a tratou com formalidade, foi distante.

Melinda concluiu que não permanecera viva nas memórias dele.

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