A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A Espera

(Eugênia Ventura)

Ali, sentada no imenso sofá, ela esperou.

A casa parecia se mover normalmente ao redor daquela ilha de imobilidade que ela criou.

Os telefones tocavam e eram atendidos, bem como a campainha. As águas dos vasos trocadas, revistas realinhadas simetricamente no cesto, cinzeiros limpos e almofadas afofadas e dispostas com maestria sobre as poltronas.

Ela, no imenso sofá, esperou.

Nem o entra e sai das pessoas, as vozes, o ruído de chaves rodadas nas fechaduras, atingiram a mulher que, perdida em pensamentos, continuava a esperar.

O perfume e ruídos dos temperos e frituras que fugiram da cozinha indicaram que as horas iam passando e a bela manhã de outono, de um abril, estava para terminar.

Aos poucos todo o silencio que ela se impôs, pareceu contagiar o ambiente. Aos poucos todos que causavam movimento já não estão, tinham ido cuidar de suas vidas.

Ela percebeu então as cortinas serem cerradas, o que mergulhou a sala numa opaca luminosidade.

A última porta bateu. A da empregada que, sem entender o bizarro comportamento da mulher, foi embora após um dia de trabalho.

Ela ainda esperou. Sente que é inútil essa espera, mas, como sempre acreditou em magia e em "finais felizes", insiste em permanecer ali, imóvel, parada, extática, no imenso sofá.

Nos muitos dias anteriores, foram os telefonemas dele que a fizeram se mover.

Um romance proibido, quase criminoso, sem eira nem beira, pura nitroglicerina se descoberto... E mesmo assim era na voz daquele homem com suas palavras gentis e obscenas juras de amor, sim, bem vulgares e de mau gosto, que brotava a vida para uma vida tão sem graça e sem sentido como a dela...

A noite surgiu e apesar da crescente escuridão que agora invade a sala, ela ainda esperou.

Um dia antes recebeu mensagem dele, cruel e fria, comunicando o término do caso. Sem explicação ou motivo. Curta, lacônica e distante.

O baque inicial, o choro escondido entre as árvores do jardim e os vestidos pendurados no closet, deram lugar a essa bizarra atitude. De um silêncio perturbador e uma incansável espera. Uma negação da realidade, uma desesperada esperança de que nada mudou e que o telefone voltaria a tocar normalmente...

Ali, no imenso sofá da sala, ela ficou um dia inteiro, sem se mover, sem falar palavra e ali permanecia quando todos voltaram.

As luzes foram acesas. A estranheza inicial da família virou perplexidade e susto!

Ali, no imenso sofá da sala, não estava mais a mulher que viveu com eles por tantos anos e nem sequer a mesma daquela manhã.

Os cabelos, antes escuros e anelados, agora eram como fios de luz translúcida, de neve, brancos e pálidos. Totalmente brancos.

Naquele imenso sofá da sala e no espaço de algumas horas, muitos e muitos anos se passaram para ela.

A distância exata e possível que existiu entre um sonho e o seu despertar.

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