Ali, sentada no imenso sofá, ela esperou.
A casa parecia se mover normalmente ao redor daquela ilha de imobilidade que
ela criou.
Os telefones tocavam e eram atendidos, bem como a campainha. As águas
dos vasos trocadas, revistas realinhadas simetricamente no cesto, cinzeiros
limpos e almofadas afofadas e dispostas com maestria sobre as poltronas.
Ela, no imenso sofá, esperou.
Nem o entra e sai das pessoas, as vozes, o ruído de chaves rodadas nas
fechaduras, atingiram a mulher que, perdida em pensamentos, continuava a esperar.
O perfume e ruídos dos temperos e frituras que fugiram da cozinha indicaram
que as horas iam passando e a bela manhã de outono, de um abril, estava
para terminar.
Aos poucos todo o silencio que ela se impôs, pareceu contagiar o ambiente.
Aos poucos todos que causavam movimento já não estão, tinham
ido cuidar de suas vidas.
Ela percebeu então as cortinas serem cerradas, o que mergulhou a sala
numa opaca luminosidade.
A última porta bateu. A da empregada que, sem entender o bizarro comportamento
da mulher, foi embora após um dia de trabalho.
Ela ainda esperou. Sente que é inútil essa espera, mas, como sempre
acreditou em magia e em "finais felizes", insiste em permanecer ali,
imóvel, parada, extática, no imenso sofá.
Nos muitos dias anteriores, foram os telefonemas dele que a fizeram se mover.
Um romance proibido, quase criminoso, sem eira nem beira, pura nitroglicerina
se descoberto... E mesmo assim era na voz daquele homem com suas palavras gentis
e obscenas juras de amor, sim, bem vulgares e de mau gosto, que brotava a vida
para uma vida tão sem graça e sem sentido como a dela...
A noite surgiu e apesar da crescente escuridão que agora invade a sala,
ela ainda esperou.
Um dia antes recebeu mensagem dele, cruel e fria, comunicando o término
do caso. Sem explicação ou motivo. Curta, lacônica e distante.
O baque inicial, o choro escondido entre as árvores do jardim e os vestidos
pendurados no closet, deram lugar a essa bizarra atitude. De um silêncio
perturbador e uma incansável espera. Uma negação da realidade,
uma desesperada esperança de que nada mudou e que o telefone voltaria
a tocar normalmente...
Ali, no imenso sofá da sala, ela ficou um dia inteiro, sem se mover,
sem falar palavra e ali permanecia quando todos voltaram.
As luzes foram acesas. A estranheza inicial da família virou perplexidade
e susto!
Ali, no imenso sofá da sala, não estava mais a mulher que viveu
com eles por tantos anos e nem sequer a mesma daquela manhã.
Os cabelos, antes escuros e anelados, agora eram como fios de luz translúcida,
de neve, brancos e pálidos. Totalmente brancos.
Naquele imenso sofá da sala e no espaço de algumas horas, muitos
e muitos anos se passaram para ela.
A distância exata e possível que existiu entre um sonho e o seu
despertar.